sexta-feira, 3 de julho de 2015

Editorial da Revista "Science" sobre a crise climática: "O Inferno Além de Dois Graus"

Periódicos científicos geralmente adotam uma postura cautelosa em temas que guardem conotação política, como em geral é conduzida a própria ciência, pela comunidade de pesquisadores.

Mas diante da gravidade e urgência da crise climática, o mais prestigioso periódico científico dos EUA, a revista Science, resolveu romper o silêncio. Sua editora-chefe, Marcia McNutt, resolveu publicar um editorial em que clama pela ação urgente em relação às mudanças no clima, elogia o Papa Francisco e o governo californiano e critica os planos pouco ambiciosos dos EUA, bem como a política absurdamente equivocada do governo da Índia.

O apelo, para além da Ciência, é moral, sobre nós, que estamos "acumulando uma dívida ambiental pela queima de combustíveis fósseis, cujas consequências serão deixadas para os nossos filhos e netos". A metáfora escolhida, do Inferno de Dante, não deixa dúvidas do grau profundo de preocupação da autora do texto. Em nosso blog, ao tempo em que saudamos a iniciativa de Marcia McNutt e da Revista Science, apresentamos a tradução do editorial.

domingo, 21 de junho de 2015

Uma Encíclica Sacode o Mundo. Parte I - A força da Ciência do Clima na nova encíclica papal

"O Clima é um bem comum", diz a
encíclica "Laudato Si", de autoria
do Papa Francisco.
A nova encíclica papal "Laudato Si", o tão aguardado texto do Papa Francisco, já difundido como a "Encíclica Verde", está sacudindo o planeta como um gigantesco terremoto. Ou, se preferirem, está tendo o impacto de um "bom asteróide", como o que precisamos para desviar a rota do "mau asteróide" (metáfora que uso, claro, para o caos climático e que me parece particularmente adequada quando evidências crescem que estamos diante da 6ª grande extinção em massa) e ao menos minimizar os seus estragos.

Chega a ser quase impossível proceder a uma análise mais detalhada do documento através de um único artigo, então este será apenas o primeiro de uma série. Aqui, neste primeiro, a preocupação maior está em mostrar como a encíclica está corretamente alinhada com a Ciência do Clima, não apenas nos aspectos mais "duros", isto é: na realidade do aquecimento global e de seu vínculo com as emissões humanas de gases de efeito estufa, mas também nas consequências socioambientais, analisadas também em estudos interdisciplinares, para além das bases físicas das mudanças climáticas, responsabilidade do "grupo de trabalho I" do IPCC, e que compõem o escopo da contribuição dos grupos II e III aos relatórios do Painel. Esse alinhamento, como veremos, confere uma força enorme ao documento papal, algo que, segundo alguns, pode ter sido facilitado pelo grau de Mestre em Química do Papa Francisco (sim, isso mesmo, ele é graduado e mestre em Química pela Universidade de Buenos Aires).

domingo, 14 de junho de 2015

Índia: 2000 mortes... ou assassinatos?

O asfalto escoa como líquido, o que é deixado claro por meio
da deformação na sinalização horizontal. Fonte da foto: ABC.
O asfalto não é propriamente sólido. É "viscoelástico" e, a rigor, não "derrete". Sua viscosidade apenas diminui muito quando a temperatura aumenta. A aproximadamente 120°C, ele se comporta de fato como um líquido. A temperaturas "normais", parece um sólido, e de fato se comporta parecido com um.

Mas o que aconteceu na Índia há alguns dias está longe de poder ser considerado "normal". Na maior parte do país, a temperatura máxima durante o dia (que, medida pelas estações meteorológicas, corresponde à temperatura do ar propriamente dita, à altura de 2 metros) excedeu 40°C, tendo chegado a mais de 45 graus em grandes extensões e ultrapassado os 47 em algumas localidades.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mudanças Climáticas e Água: de Crise a Colapso

Revista "Água para quem precisa: direito humano e
suporte à vida". Disponível neste link.
Este artigo foi publicado, junto com vários outros, de vários colegas do Ceará, na revista "Água para quem precisa: direito humano e suporte à vida", publicada por iniciativa dos mandatos do deputado estadual Renato Roseno e do vereador João Alfredo e disponibilizada através deste link.

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Introdução

Recentemente, o Brasil foi (e segue, apesar da estação chuvosa) assolado por condições extremas de seca, com consequente crise de abastecimento em numerosas cidades do Nordeste e do Sudeste. No início do mês de março, o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, admitira como “crítica” a situação dos reservatórios no Nordeste e no Sudeste. Nas palavras do próprio Occhi, "identificamos 56 cidades que hoje estão em colapso, sendo atendidas pelas prefeituras ou pelos governos estaduais. Nenhuma dessas é atendida pelo governo federal, mas como a situação está se ampliando, o governo federal pediu um levantamento e nós podemos chegar, dentro de uma avaliação, ao número de 105 cidades que estão ou poderão estar em colapso”. O levantamento daquele momento do ministério, para o Nordeste, indicava que os estados mais atingidos eram, pela ordem de número de municípios em tais condições, Ceará (23), Paraíba (15), Rio Grande do Norte (9), Bahia (5), Alagoas (2) e Pernambuco (2), conforme informações do Portal G1 [1] e da página do Jornal do Brasil na internet [2].

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Acorrentados. Mas até quando?

Chiara D'Angelo segura o cartaz: "Salve o Ártico".
Chiara Rose D'Angelo é o nome da ativista que prendeu-se à âncora do "Arctic Challenger", navio de apoio às operações que a Shell está iniciando no Ártico, após ter contado com o sinal verde do governo dos EUA, num movimento injustificável por parte de Obama. Este havia sinalizado poucos dias antes que encararia a questão climática de frente, inclusive contando com o apoio de um humorista para bater no negacionismo climático. Mas da comédia veio a tragédia: ao autorizar a Shell a explorar petróleo no Ártico,  apenas mais uma vez frustrou inteiramente o movimento ambientalista, e desta vez com um requinte de traição.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

400 ppm de CO2: a Atmosfera da Terra como Lata de Lixo do Capital

Vivemos vizinho a um planeta que, nas palavras do eterno
Carl Sagan, nos mostra que "as coisas podem dar errado".
Vênus é semelhante à Terra em vários aspectos, mas seu
efeito estufa desmedido o transformou literalmente num
inferno. Foto: imagem de computador da superfície de Vênus,
em Eistla Regio. Fonte: NASA (disponível em
http://nssdc.gsfc.nasa.gov/photo_gallery/photogallery-venus.html)
Terra: ajuste delicado

Com exceção de um ou outro astronauta, a grande maioria de nós vive, do primeiro ao último dia de vida, imerso nesta delgada película de ar que recobre a Terra: a atmosfera. Além de garantir-nos o oxigênio que respiramos e usamos para retirar energia dos alimentos e, graças à presença de ozônio em suas camadas superiores, nos proteger da radiação ultravioleta com que o Sol bombardeia o planeta, a atmosfera cumpre também um papel regulador do clima, graças ao chamado “efeito estufa”.


Exercido por gases minoritários na atmosfera terrestre (vapor d’água, dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), o efeito estufa é fundamental para o clima ameno da Terra, assegurando a ocorrência de água em estado líquido e, portanto, garantindo as próprias condições de existência da vida como a conhecemos. Sem esse efeito, a Terra seria nada mais que uma esfera congelada e árida; com efeito estufa em demasia, seus oceanos poderiam ferver deixando para trás uma paisagem infernal como a do planeta vizinho, Vênus, recoberto por nuvens de ácido sulfúrico e onde o chumbo escoa, em estado líquido, em sua superfície causticante. É um ajuste delicado, do qual dependemos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Leo Dicaprio: "Eu não sou um cientista, mas não precisa ser."

O discurso foi feito há alguns meses, mais precisamente na cúpula da ONU em Setembro passado, mas acredito que ele tenha escapado ao radar das mídias alternativas do Brasil. Leonardo Dicaprio é uma expressão de algo que precisamos ver com mais frequência: figuras públicas entendendo a gravidade da situação, percebendo a urgência para se resolver a crise climática e propondo ação. Da minha parte, acho que sem uma efetiva pressão de baixo, dos mais atingidos pela mudança climática, os governos tenderão a continuar na zona que mistura conforto e rendição aos lobbies fósseis: que leva à inação e à irresponsabilidade, à continuidade dos subsídios às petroleiras e mineradoras. E pela força e sinceridade do discurso de Dicaprio, acredito que valha a pena apresentar para vocês a tradução. Mais Leos, por favor!