terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Para. Para tudo. Já.

Uma das maiores panacéias que vêm sendo vendidas à sociedade brasileira é que a construção de grandes hidrelétricas na Amazônia irá nos assegurar segurança energética no futuro. Há também toda uma chantagem do tipo "ou isso ou as termelétricas", estas, que seriam apenas uma reserva energética mas que estão literalmente a todo vapor e a todo CO2, além de levarem a um aumento no valor médio da tarifa. A ostensiva campanha em torno de Belo Monte, Jirau e outros belos monstros anestesia grande parte da sociedade brasileira, que prefere ver os povos indígenas do Xingu e do Tapajós completamente extintos a trocarem seu chuveiro elétrico por um sistema de aquecimento solar de água (calma... de que água mesmo estamos falando?).

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Quinze 2.0 exige resposta: Água para Quem?

Quase 2/3 de chance de chuvas abaixo do normal. Chega de
ilusões. É preciso encarar de forma cristalina como água limpa
a questão fundamental: ÁGUA PARA QUEM?
Probabilidade é probabilidade. Previsões têm sempre incertezas. Mas não dá para tapar o sol (nem o CO2 extra na atmosfera, nem a água que evapora loucamente no calor) com a peneira. O sinal de previsão da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), de chance de 64% de chuvas abaixo da média, é muito forte para ser desprezado. Especialmente quando até um ano normal dificilmente iria aliviar a situação de seca e recarregar os reservatórios, algo que só aconteceria num ano de chuvas acima do normal.

Há alguns anos, já venho alertando para as consequências da crise climática, que seriam mais graves e mais profundas. Já cansei de repetir que é inaceitável sustentar, no semi-árido, atividades econômicas intensivas como o agronegócio de fruticultura irrigada e uma termelétrica a carvão (haja CO2) que sozinha consome quase 1000 litros de água a cada segundo (ou três milhões e meio de litros de água por hora, o que seria suficiente para abastecer mais de meio milhão de pessoas!). Isso foi feito em diversos artigos, como este, publicado no presente blog, ou este, publicado na grande imprensa e em diversos pronunciamentos junto a movimentos sociais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Desigualdade e Irracionalidade, Marcas da Crise Climática

A equação é simples: a pegada de carbono está fortemente
correlacionada com a renda e o consumo. Os ricos, menos
vulneráveis, são os que mais emitem.
O presente artigo não é ainda um balanço geral da COP-20, realizada no último mês de dezembro, em Lima (algo em que nosso blog ainda está em dívida). Ao invés disso, a ideia é analisarmos aspectos que são importantes para entender a profunda paralisia que permanece nos círculos de negociação, para além, claro do enorme poderio (e, consequentemente do poderoso lobby) da parte da indústria fóssil em geral e das petroquímicas em particular.

Um dos fatores que leva à paralisia é a evidente desigualdade entre beneficiários das emissões de gases de efeito estufa e os mais atingidos pelos impactos das mudanças climáticas. No que diz respeito aos Estados nacionais, os dois conjuntos (maiores beneficiários versus principais atingidos) contêm interseções, claro, mas a regra é o contrário, isto é, em geral, os países que estão na linha de frente do risco climático estão longe de ser os que mais geraram e acumularam riqueza propulsionados pela queima de carvão e petróleo.

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Clima não Joga Dados! (nem aposta na mega-sena)

Royal Straight Flush: o sonho de consumo do jogador de
poker é 40 vezes mais provável do que "não existir aque-
cimento global".
Está a fim de jogar poker? Sonha com aquele "Royal Straight Flush" (sequência de 10, valete, dama, rei e ás do mesmo naipe)? Prepare-se, pois a chance disso acontecer é de apenas uma em 649.739!

Ganhar 4 vezes seguidas na roleta, apostando diretamente no número? É possível, mas bem pouco provável, afinal a probabilidade é de uma em trinta e sete multiplicado por ele mesmo quatro vezes, ou seja, uma em 37 x 37 x 37 x 37 = 1.874.161

Quais as chances de se morrer atingido por um raio? Uma em 2.320.000 (claro, desde que você não suba ao topo de uma montanha no meio de uma tempestade segurando uma vareta metálica apontada para o céu).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

2014: Uma Odisseia na Estufa

Nas mãos de Arthur C. Clarke, 2001 e 2010 já foram sinônimos de ficção científica, anos popularizados através dos filmes da "Odisseia no Espaço". Qualquer data além disso poderia ser objeto de especulações acerca de um futuro em que a tecnologia pudesse proporcionar conquistas formidáveis ou, pelo menos, como no bem menos pretensioso "De Volta para o Futuro", o uso cotidiano de tênis que se ajustam sozinhos ou skates voadores.

Mesmo fora do terreno da ficção, mas na seara das projeções para o futuro, 2014, antes de virar passado, provavelmente já foi vislumbrado, há algumas poucas décadas, como o ano em que se teria encontrado a cura definitiva para o câncer ou a AIDS, erradicado o analfabetismo em escala mundial, enviado a primeira missão tripulada a Marte, abolido definitivamente as armas nucleares ou debelado a fome, os conflitos territoriais, étnicos e religiosos. Era um tempo em que a ficção e até mesmo análises da realidade aparentemente coerentes tendiam a projetar mais avanços e menos cenários distópicos. Estes foram se tornando cada vez mais frequentes, de Mad Max a Wall-E; de Matrix ao interessantíssimo "Uma História de Amor e Fúria", apenas para citar alguns exemplos.

O NOVO RECORDE DE TEMPERATURA GLOBAL

Eis que 2014 chegou e ao contrário da solução de algum grande problema da humanidade, ele trouxe o traço simbólico da incapacidade de resolução do maior deles. Consolidados os dados, como já se esperava nos últimos meses, está confirmado: 2014 é o ano mais quente de todo o registro histórico de temperatura global, iniciado em 1880.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Contra o Negacionismo Oficial: é preciso defender a Ciência brasileira

Aldo Rebelo, aquele que nega a Ciência
do Clima e diz que o movimento ambi-
entalista é "pró-imperialismo" é nome-
ado Ministro da Ciência, Tecnologia e
Inovação. Antes fosse apenas uma piada
de péssimo gosto.
Nos próximos dias, outras instituições de pesquisa e monitoramento climático, incluindo NOAA e NASA, deverão confirmar, cada uma usando uma metodologia diferente, o que a Agência Japonesa acabou de divulgar: 2014 é, com efeito, o ano mais quente de todo o período instrumental. Mas a virada do ano em Terra Brasilis,  ao contrário do que um fato desses deveria provocar (isto é, priorização da temática e transversalização da mesma em todos os ministérios), um negacionista climático é nomeado para o cargo de Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, justamente aquele que deveria induzir, incentivar e conduzir trabalhos de pesquisa junto à comunidade brasileira, envolvendo quantificação das mudanças, dos seus impactos e dos riscos e desenvolvimento de estratégias, incluindo soluções tecnológicas, para redução das vulnerabilidades, mitigação e adaptação.

Dois textos de autoria do agora ministro são duas verdadeiras pérolas de ignorância relativa à ciência do clima, ao mesmo tempo em que se caracterizam pelo acentuado grau de arrogância. O primeiro e mais importante, é o relatório que Aldo Rebelo preparou para alterar profundamente o Código Florestal. Dentre outras coisas (como tratar "o homem como o único ser vivo dotado de consciência e inteligência, capaz de interagir com a natureza e de transformá-la"), sua visão da Amazônia é assustadora, como se vê na passagem a seguir (parte de uma extensa citação de um livro do geógrafo Josué de Castro, publicado em 1946 e que Aldo Rebelo reivindica como correta...):

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Eólicas: para quem, para quê, como?

Eólicas no Ceará seguem no sentido oposto ao esperado em
relação às renováveis: promovem conflitos com as comuni-
dades costeiras, devastam dunas e aterram lagoas, um enor-
me desserviço, inclusive à causa da busca de tecnologias
que podem ajudar a nos livrar do impasse fóssil.
Há poucos dias, uma pessoa muito querida, minha "filhota acadêmica" Juliana Oliveira, publicou a foto ao lado, que acredito tenha sido tirada lá pelo litoral de Trairi, que tem as belas praias de Mundaú, Flecheiras, Guajiru... Juliana trabalhou comigo no seu mestrado, avaliando precisamente a possível influência da variabilidade climática interanual sobre a geração eólica. Concluiu que relações bem conhecidas entre o estado dos oceanos tropicais e a chuva sobre o norte do Nordeste (que se concentra em poucos meses do primeiro semestre) também aparecem em relação aos ventos. Anos com El Niño no Pacífico e/ou "dipolo positivo" no Atlântico (a grosso modo, quente ao norte e frio ao sul), geralmente secos, tendiam produzir ventos mais intensos no primeiro semestre, acontecendo o contrário em anos com La Niña e/ou "dipolo negativo" (quem tiver curiosidade, o trabalho está acessível neste link). A expectativa de trabalhos como esse, claro, era o de subsidiar a implantação de fontes de energia renováveis em nossa região, mas...