quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Equilíbrio do Sistema Climático Terrestre não é um "Problema de Engenharia"

O debate climático pode ser acirrado, sim.
Mas não é aquele que os negacionistas
dizem existir, nem travado na forma que
eles tentam fazer o público acreditar
Como coloquei em postagem anterior, não existe debate sobre a existência ou não do aquecimento global, tampouco de suas causas (antrópicas), nem sequer da importância dos riscos a ele associados ou da urgência em lidar com o tema. Esse é o consenso da comunidade científica em função do peso das evidências.

Mas isto não quer dizer que não haja polêmicas ou debate em nosso meio. Pelo contrário, há ainda incertezas importantes sobre determinados aspectos da dinâmica do clima, envolvendo a magnitude de certos processos, questões de irreversibilidade, dimensão dos impactos e, claro, há diferenças entre nós sobre o que deve ser feito, ou seja sobre as soluções para a crise climática. Há desde propostas que objetivamente se colocam contra a estrutura vigente da produção capitalista, calcada em crescimento ilimitado movido a partir da queima de combustíveis fósseis, centradas em uma forte mitigação, com as quais evidentemente me alinho (e que, acredito, são as melhor alinhadas com as evidências objetivas levantadas pela Ciência do Clima) até alternativas bem mais palatáveis aos olhos do grande capital.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

No verdadeiro meio científico não há negacionismo. Mas isso está longe de ser suficiente.


Ao lado, mostramos uma montagem feita a partir de cartaz verdadeiro da EGU2015, na verdade, um espaço para avisos ainda não utilizado (já que no momento em que a fotografei estávamos ainda a algumas horas da abertura do evento). O que ele diz é óbvio: assim como não há defensores da "Terra Plana" ou alguém que afirme que nosso planeta tenha sido criado há 6000 anos, em meio aos especialistas em Geologia, nem, nas seções dedicadas à Paleontologia, alguém que afirme que as formas de vida apareceram, por obra divina, exatamente como são hoje, desprezando todas as evidências de registro estratigráfico, de radioisótopos, de registro fóssil etc., nas seções relacionadas ao clima também não se vê o equivalente, em nosso caso, a criacionistas ou "flat-earthers": os negadores da mudança climática. Mas o que se esconde atrás do óbvio é que devemos nos preocupar muito, não apenas e talvez nem principalmente com o negacionismo aberto (que é grosseiramente anticientífico), mas com formas mais sutis de fuga do problema da crise climática.

domingo, 12 de abril de 2015

Assembleia da EGU em Viena: Haja conspiração!

Mais uma vez a Assembleia Geral da
EGU ocorre em Viena
Pela terceira vez estou em Viena para participar da Assembleia Geral da European Geosciences Union, evento que ocorre anualmente nesta cidade há alguns anos. Apresentarei um trabalho na seção dedicada a modelagem climática regional e aproveitarei a oportunidade para atualizar-me, fazer contatos etc.

Especialmente a primeira participação valeu a pena por dois momentos em particular. Um deles foi ter podido ver James Hansen em pessoa. O outro foi ter participado, em meio a um auditório absolutamente cheio, da condecoração de Michael Mann com a medalha Hans Oescheger. Foi um momento de rara satisfação, primeiro por Mike, que havia enfrentado há poucos anos ataques desonestos e raivosos da máquina negacionista, descritos em seu então recente livro "O Taco de Hockey e as Guerras Climáticas" e que tinha, através dessa comenda, seu trabalho reafirmado pela comunidade científica; segundo, por mim mesmo que, além de ter tido a minha cópia do livro devidamente autografada, ainda ter sido reconhecido pessoalmente por Mike (apesar de antes termos nos limitado a trocar algumas palavras num encontro da American Meteorological Society, nos EUA, no milênio passado). Os dois (Hansen e Mann), aliás, participaram de uma sessão aberta à imprensa, disponível neste link, discutindo a questão da sensibilidade climática.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Metano: o buraco é mais embaixo.

Ao invés de derreter lentamente, liberando os gases da decom-
posição de matéria orgânica (com destaque para o metano) de
forma gradual, os indícios são os de que o permafrost siberiano
esteja simplesmente explodindo por conta da pressão desses gases.
Buracos gigantescos têm aparecido na Sibéria. Não, nenhum sinal de que extraterrestres estejam nos visitando e que, além das já atribuídas bizarrices de sequestrar vacas e fazer desenhos enormes em plantações, eles tenham acrescentado mais um suposto hábito estranho. Pelo contrário, as evidências que emergem dos estudos recentes são a de que o mecanismo de produção é bastante mundano, mas é exatamente por ser algo "deste mundo" que precisa ser motivo de espanto e de preocupação: os mesmos são muito provavelmente produto de explosões no chamado permafrost, o solo congelado daquela região. Basta dizer que as concentrações de gás metano na base dessas crateras, algumas com várias dezenas de metros de diâmetro, são extremamente elevadas. Segundo informações publicadas na revista Nature, algumas medidas chegaram a detectar percentagens de metano no ar no piso de um desses buracos de 9,6%, o que é impressionante, dado que a presença média de metano na atmosfera terrestre no presente é da ordem de 1800 partes por bilhão (mais de 50 mil vezes menos!).

segunda-feira, 30 de março de 2015

Entrevista com Naomi Klein: "O que estamos a desmantelar agora é o nosso próprio planeta"

Apresentamos entrevista concedida por Naomi Klein, jornalista e uma das mais destacadas ativistas climáticas do presente, à revista Der Spiegel. A entrevista (traduzida a partir do inglês) toca em vários pontos abordados em seu livro "This changes everything: capitalism vs. the climate" (“Isto muda tudo: o capitalismo contra o clima”) e por vezes chega a mostrar a tensão em torno do tempo. Naomi Klein relaciona claramente a crise climática ao poder das corporações e chega a tocar em como a lógica de dominação sobre a natureza está associada à própria ideologia do patriarcado. Imperdível.
------------------------------------------
Der Spiegel: Naomi, por que não conseguimos deter a mudança climática?
Naomi Klein: Má sorte. Mau momento. Muitas coincidências infelizes.
Spiegel: A catástrofe errada no momento errado?

sexta-feira, 27 de março de 2015

Água e Clima: Muito a comunicar, Muito por lutar

"Colapso Hídrico e Ecossocialismo". Na mesa, a partir da es-
querda, eu, Prof. Alexandre Pessoa, Deputado Estadual Flávio
Serafini, Vereador Renato Cinco, Profa. Flávia Braga e Prof.
Carlos Vainer.
Reproduzo aqui meu artigo publicado no site da Fundação Lauro Campos, por ocasião do Dia Mundial da Água e aproveito para falar de outras atividades que tenho desenvolvido. É que a agenda das últimas semanas têm sido bastante intensa. No início do mês estive em Canindé para uma reunião e em Santa Quitéria para uma palestra. No Dia 16/03, Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, me fiz presente em Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Ceará, onde tive oportunidade de mostrar à Presidente da Comissão de Meio-Ambiente e ao Secretário do governo estadual e a todos/as presentesos dados absurdos de emissões de CO2 e consumo de água por uma única termelétrica, para na sequência seguir ao Labomar, instituto vinculado à Universidade Federal do Ceará, para uma palestra no evento "Crise Hídrica: a gota d'água!". No Dia 21/03, participei de debate na FM Universitária (um encontro emocionante de ciência com poesia, ao lado de Henrique Beltrão e João Figueiredo), cujo áudio está disponível online e em mesa, em evento do RUA-Juventude Anticapitalista junto com a liderança indígena Clécia Pitaguary. Três dias depois, integrantes do Fórum Ceará no Clima fizemos uma tentativa de entrega da petição contra o subsídio da água para a UTE-Pecém e visitei minha eterna casa, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (pertenci aos quadros da instituição por mais de uma década e meia e hoje vários dos estudantes que foram orientados por mim estão vinculados a ela), para palestrar sobre o Dia Meteorológico Mundial com o tema "Clima: Conhecer para Agir". E a agenda segue, ontem e hoje no Rio de Janeiro (ontem, ocorreu a mesa "Colapso Hídrico e Ecossocialismo", no Plenário da Câmara Municipal). Oxalá seja um sinal de que o debate ambiental e as profundas (e incômodas, reconheço) reflexões que ele traz para as esferas econômica e política estejam deixando de ser objeto de preocupação de meia dúzia.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Termelétricas: Números Estarrecedores, Crime contra o Clima!

Sinceridade, mas só em parte. a ex-Humble, hoje Exxon, bem
que podia realmente colocar o quanto de gelo ela é capaz de
derreter, através do CO2 que emite. A conta certamente sur-
preenderia o mais "catastrofista" dos ativistas!
Tive minha atenção chamada hoje por uma imagem compartilhada através da página da People and Climate no Facebook. Eram duas páginas de anúncio de 1962, da Humble, companhia de petróleo que mais tarde veio a se chamar... Exxon! A frase, em tom altissonante, em tradução livre, é "a cada dia a Humble provê energia em quantidade suficiente para derreter 7 milhões de toneladas de geleiras". É um número impressionante, que já mostrava a pujança da antecessora da maior petroquímica dos EUA há 5 décadas, mas parece uma estranha manifestação de "honestidade" da parte de uma das companhias que mais financiam o negacionismo climático hoje em dia. Claro, o que a hoje Exxon queria mostrar é que ela produzir muito petróleo, mas seria interessante que a sinceridade fosse real e ela mostrasse o quanto de geleiras o CO2 por ela emitido efetivamente derrete!