segunda-feira, 25 de maio de 2015

Acorrentados. Mas até quando?

Chiara D'Angelo segura o cartaz: "Salve o Ártico".
Chiara Rose D'Angelo é o nome da ativista que prendeu-se à âncora do "Arctic Challenger", navio de apoio às operações que a Shell está iniciando no Ártico, após ter contado com o sinal verde do governo dos EUA, num movimento injustificável por parte de Obama. Este havia sinalizado poucos dias antes que encararia a questão climática de frente, inclusive contando com o apoio de um humorista para bater no negacionismo climático. Mas da comédia veio a tragédia: ao autorizar a Shell a explorar petróleo no Ártico,  apenas mais uma vez frustrou inteiramente o movimento ambientalista, e desta vez com um requinte de traição.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

400 ppm de CO2: a Atmosfera da Terra como Lata de Lixo do Capital

Vivemos vizinho a um planeta que, nas palavras do eterno
Carl Sagan, nos mostra que "as coisas podem dar errado".
Vênus é semelhante à Terra em vários aspectos, mas seu
efeito estufa desmedido o transformou literalmente num
inferno. Foto: imagem de computador da superfície de Vênus,
em Eistla Regio. Fonte: NASA (disponível em
http://nssdc.gsfc.nasa.gov/photo_gallery/photogallery-venus.html)
Terra: ajuste delicado

Com exceção de um ou outro astronauta, a grande maioria de nós vive, do primeiro ao último dia de vida, imerso nesta delgada película de ar que recobre a Terra: a atmosfera. Além de garantir-nos o oxigênio que respiramos e usamos para retirar energia dos alimentos e, graças à presença de ozônio em suas camadas superiores, nos proteger da radiação ultravioleta com que o Sol bombardeia o planeta, a atmosfera cumpre também um papel regulador do clima, graças ao chamado “efeito estufa”.


Exercido por gases minoritários na atmosfera terrestre (vapor d’água, dióxido de carbono, metano e óxido nitroso), o efeito estufa é fundamental para o clima ameno da Terra, assegurando a ocorrência de água em estado líquido e, portanto, garantindo as próprias condições de existência da vida como a conhecemos. Sem esse efeito, a Terra seria nada mais que uma esfera congelada e árida; com efeito estufa em demasia, seus oceanos poderiam ferver deixando para trás uma paisagem infernal como a do planeta vizinho, Vênus, recoberto por nuvens de ácido sulfúrico e onde o chumbo escoa, em estado líquido, em sua superfície causticante. É um ajuste delicado, do qual dependemos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Leo Dicaprio: "Eu não sou um cientista, mas não precisa ser."

O discurso foi feito há alguns meses, mais precisamente na cúpula da ONU em Setembro passado, mas acredito que ele tenha escapado ao radar das mídias alternativas do Brasil. Leonardo Dicaprio é uma expressão de algo que precisamos ver com mais frequência: figuras públicas entendendo a gravidade da situação, percebendo a urgência para se resolver a crise climática e propondo ação. Da minha parte, acho que sem uma efetiva pressão de baixo, dos mais atingidos pela mudança climática, os governos tenderão a continuar na zona que mistura conforto e rendição aos lobbies fósseis: que leva à inação e à irresponsabilidade, à continuidade dos subsídios às petroleiras e mineradoras. E pela força e sinceridade do discurso de Dicaprio, acredito que valha a pena apresentar para vocês a tradução. Mais Leos, por favor!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Dia da Terra e década decisiva para o clima

Por que um "Dia da Terra"?
Ainda estou em dívida com os/as leitores/as do blog no que diz respeito a pelo menos dois artigos ainda referentes à EGU-2015, a Assembleia Geral da União Europeia de Geociências. Mas não poderia me furtar a tecer alguns comentários sobre o Dia da Terra, ainda que, em Terra Brasilis, o 22 de Abril tenha marcado justamente o início da ocupação europeia e, por conseguinte, do maior processo de devastação de florestas tropicais na escala planetária (ao se somar o que se perdeu na praticamente dizimada Mata Atlântica, da qual restam menos de 10% da cobertura original, com a perda também gigantesca de área da Floresta Amazônica, que já se aproxima de 1/5 da sua área total).

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Equilíbrio do Sistema Climático Terrestre não é um "Problema de Engenharia"

O debate climático pode ser acirrado, sim.
Mas não é aquele que os negacionistas
dizem existir, nem travado na forma que
eles tentam fazer o público acreditar
Como coloquei em postagem anterior, não existe debate sobre a existência ou não do aquecimento global, tampouco de suas causas (antrópicas), nem sequer da importância dos riscos a ele associados ou da urgência em lidar com o tema. Esse é o consenso da comunidade científica em função do peso das evidências.

Mas isto não quer dizer que não haja polêmicas ou debate em nosso meio. Pelo contrário, há ainda incertezas importantes sobre determinados aspectos da dinâmica do clima, envolvendo a magnitude de certos processos, questões de irreversibilidade, dimensão dos impactos e, claro, há diferenças entre nós sobre o que deve ser feito, ou seja sobre as soluções para a crise climática. Há desde propostas que objetivamente se colocam contra a estrutura vigente da produção capitalista, calcada em crescimento ilimitado movido a partir da queima de combustíveis fósseis, centradas em uma forte mitigação, com as quais evidentemente me alinho (e que, acredito, são as melhor alinhadas com as evidências objetivas levantadas pela Ciência do Clima) até alternativas bem mais palatáveis aos olhos do grande capital.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

No verdadeiro meio científico não há negacionismo. Mas isso está longe de ser suficiente.


Ao lado, mostramos uma montagem feita a partir de cartaz verdadeiro da EGU2015, na verdade, um espaço para avisos ainda não utilizado (já que no momento em que a fotografei estávamos ainda a algumas horas da abertura do evento). O que ele diz é óbvio: assim como não há defensores da "Terra Plana" ou alguém que afirme que nosso planeta tenha sido criado há 6000 anos, em meio aos especialistas em Geologia, nem, nas seções dedicadas à Paleontologia, alguém que afirme que as formas de vida apareceram, por obra divina, exatamente como são hoje, desprezando todas as evidências de registro estratigráfico, de radioisótopos, de registro fóssil etc., nas seções relacionadas ao clima também não se vê o equivalente, em nosso caso, a criacionistas ou "flat-earthers": os negadores da mudança climática. Mas o que se esconde atrás do óbvio é que devemos nos preocupar muito, não apenas e talvez nem principalmente com o negacionismo aberto (que é grosseiramente anticientífico), mas com formas mais sutis de fuga do problema da crise climática.

domingo, 12 de abril de 2015

Assembleia da EGU em Viena: Haja conspiração!

Mais uma vez a Assembleia Geral da
EGU ocorre em Viena
Pela terceira vez estou em Viena para participar da Assembleia Geral da European Geosciences Union, evento que ocorre anualmente nesta cidade há alguns anos. Apresentarei um trabalho na seção dedicada a modelagem climática regional e aproveitarei a oportunidade para atualizar-me, fazer contatos etc.

Especialmente a primeira participação valeu a pena por dois momentos em particular. Um deles foi ter podido ver James Hansen em pessoa. O outro foi ter participado, em meio a um auditório absolutamente cheio, da condecoração de Michael Mann com a medalha Hans Oescheger. Foi um momento de rara satisfação, primeiro por Mike, que havia enfrentado há poucos anos ataques desonestos e raivosos da máquina negacionista, descritos em seu então recente livro "O Taco de Hockey e as Guerras Climáticas" e que tinha, através dessa comenda, seu trabalho reafirmado pela comunidade científica; segundo, por mim mesmo que, além de ter tido a minha cópia do livro devidamente autografada, ainda ter sido reconhecido pessoalmente por Mike (apesar de antes termos nos limitado a trocar algumas palavras num encontro da American Meteorological Society, nos EUA, no milênio passado). Os dois (Hansen e Mann), aliás, participaram de uma sessão aberta à imprensa, disponível neste link, discutindo a questão da sensibilidade climática.