terça-feira, 18 de novembro de 2014

Pena Branca e a Velha a Fiar

Cena de "A Velha a Fiar", curta-metragem de 1964
"O gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar"

A "Velha a Fiar" é uma canção popular, que inspirou um curta-metragem brasileiro de 1964 com direção de Humberto Mauro, tendo como trilha a canção, interpretada pelo Trio Irakitan.

Começando por uma interação simples, entre a velha senhora e uma mosca, que lhe tira o sossego, a música segue - de certa forma até irritante - concatenando outros elementos: a aranha, que importuna a mosca; o rato, que incomoda a aranha etc.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O QUINZE 2.0? Ataque da Hidra Ilógica sobre o Ceará

"(...) E se não fosse uma raiz de mucunã arrancada aqui e além, ou alguma batata-branca que a seca ensina a comer, teriam ficado todos pelo caminho, nessas estradas de barro ruivo, semeado de pedras, por onde eles trotavam trôpegos se arrastando e gemendo (...)"
(Rachel de Queiroz, em "O Quinze")

Açude Pentecoste, de grande porte, que
abastece a cidade de mesmo nome e no
qual a pesca era abundante hoje está com
apenas 1,7% da capacidade (dado do
Portal Hidrológico do Estado do Ceará)
e operando no volume morto.
Há pouco menos de um mês, a mídia começou a dar repercussão a algumas denúncias que estamos fazendo há muito tempo, sobre o escândalo da política de recursos hídricos no estado do Ceará, que chegou, nas eleições deste ano, incluindo o seu segundo turno, a ser citada como "modelo" em contraponto ao que todos e todas sabemos se tratar de um descalabro completo que é a gestão de Geraldo Alckmin em São Paulo. Nesse contexto, se insere uma matéria da Tribuna do Ceará, na qual sou mencionado, mas em que é dado muito mais destaque a réplicas nada verdadeiras por parte dos dirigentes da COGERH (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos). Sinto-me na obrigação de contestar várias das informações que ali aparecem e fortalecer a denúncia que fiz. Afinal, a crise hidrológica aqui no Nordeste, ou em São Paulo, na China ou na Califórnia, é uma das vertentes da Crise Climática que, como bem colocou Rajendra Pachauri, principal dirigente do IPCC, atingirá mais cedo ou mais tarde a todo e qualquer ser humano (o próprio relatório do IPCC, como discutimos no nosso blog, é claro: os mais pobres são os mais vulneráveis e os impactos da mudança climática estão entrelaçados às diferenças sociais e às opressões de classe, de nação, de gênero, de etnia). As outras, vertente incluem os furacões e tufões mais severos, a acidificação dos oceanos, o degelo das calotas polares, tempestades e enchentes mais vigorosas, ondas de calor recorde, incêndios florestais em cada vez maiores proporções, etc.

domingo, 16 de novembro de 2014

Eduardo Viveiros contra o Negacionismo e o "Indiferentismo", em Defesa da Ciência do Clima

Não adianta torcer o nariz. Mesmo se você não concorda com suas teorias e posições político-ideológicas, eu sei que você admite que ele é um dos grandes pensadores brasileiros do presente. Falo de Eduardo Viveiros de Castro, ao mesmo tempo antropólogo de contribuição absolutamente original e ativista das causas indígenas, ambientais e libertárias e que fez um movimento interessante nos últimos anos: o de estabelecer um forte diálogo fora do ambiente acadêmico, usando especialmente as redes sociais. Nas palavras de ninguém menos do que Claude Lévi-Strauss, Eduardo é "fundador de uma nova escola na antropologia" e o tom de sua crítica sistêmica é evidente ao afirmar peremptoriamente que “a escravidão venceu no Brasil; nunca foi abolida” e que “o capitalismo sustentável é uma contradição em seus termos”. Com as temáticas indígena e climática se tornando cada vez mais uma coisa só e ambos habitando o ambiente virtual (eu mesmo já havia iniciado uma incursão via tweeter, antes mesmo de me decidir por criar este blog e a nossa página no Facebook), o encontro, primeiro virtual, depois real, era uma questão de tempo. Mentor ao lado de Déborah Danowski do interessantíssimo "Os Mil Nomes de Gaia", em que se conseguiu reunir pessoas de áreas tão diversas quanto Climatologia e Sociologia, Antropologia e Agronomia, para mim é uma honra contar com uma muito oportuna publicação do Eduardo aqui em nosso blog, sobre o negacionismo climático. Com a palavra, o xamã:

sábado, 15 de novembro de 2014

A Hidra Ilógica, bicho de 7 cabeças

A hidra é a famigerada criatura mitológica de muitas cabeças. Eram sete cabeças que podiam se regenerar, rezando a lenda que a hidra, de tão venenosa, era capaz de matar quem dela se aproximasse apenas pelo hálito. A luta contra um ser terrível como esse, pronto a atacar por vários flancos, certamente não deveria ser fácil. E é por isso que a escolhi, para além da semelhança fonética, para representação da crise hídrica que assola não apenas o Brasil, mas várias partes do mundo. Neste texto, analisaremos como todas as cabeças da Hidra Ilógica convergem em um único fim: o risco de crises de abastecimento em nossas cidades é hoje muito maior, por uma conjunção de fatores climáticos, ambientais, sócio-econômicos e políticos.

sábado, 8 de novembro de 2014

Tacloban, um ano depois

Há um ano atrás, ventos de mais de 300 km/h, as chuvas torrenciais e uma brutal "onda (ou maré) de tempestade" de 4 metros (quantidade enorme de água arrastada pelos ventos de grandes tormentas para dentro do continente) punha abaixo uma cidade de mais de 200 mil habitantes, capital de uma das províncias das Filipinas: Leyte, na ilha de mesmo nome. Foram 6201 mortos na tragédia.

O governo local ficou desestruturado e incapaz de agir, sem local de funcionamento, em meio a uma cidade sem energia elétrica, sem comunicações, sem serviço de água ou esgoto e com cadáveres espalhados por toda parte. Após um sobrevoo, um militar dos EUA descreveu, em choque: "não consigo encontrar uma única estrutura da cidade, um único prédio, uma única casa, que não tenha sido, quando não completamente destruída, pelo menos severamente danificada".

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Viagem ao Mundo de 400 ppm

Abril de 2014: a média mensal, bem como todas as médias
semanais e medidas diárias em Mauna Loa, sítio de medidas
de CO2 que funciona desde 1958, acima de 400 ppm, fato
absolutamente inédito (quando as medidas se iniciaram, os
valores giravam em torno de meros 315 ppm).
Os dados de Mauna Loa (disponíveis no site do Scripps e no site da NOAA) estão a cada dia com "cara mais feia". A medida diária recorde ainda é de 01/05/2014: 403,1 partes por milhão (ppm), mas tem tudo para ser batido. Também deve ser superada a média mensal de Abril (401,3 ppm), já que a média mensal de CO2 neste mês de Maio será, com certeza, novo recorde, provavelmente acima de 402,5 ppm. É quase certo também que, este ano, teremos 3 meses com concentração de CO2 acima de 400 ppm, pois o mês de Junho deve fechar com algo em torno de 401,5 ppm (em Abril, já tivemos média de 401,3 ppm).

Em Julho, seguindo o ciclo anual, essa concentração deve descer abaixo de 400 ppm, para fechar, ao fim de 2014, numa média anual recorde próximo a 399 ppm (ou até acima!). 2015, assim, deverá ser o primeiro ano para o qual a média deverá superar 400 ppm.

sábado, 12 de abril de 2014

Não à rendição! Nem geoengenharia, nem nuclear, nem transgênicos!

A Ciência do Clima revelou como a queima de combustíveis
fósseis, principal fonte de energia para movimentar a
máquina capitalista, está levando o sistema climático
à beira de uma espiral sem volta de desestabilização. A
 comunidade científica precisa ser capaz de ir até o fim e
não pode se render às "saídas fáceis" oferecidas pelo capital.
Cercados de todos os lados, mesmo pessoas valorosas da Ciência têm feito concessões inadmissíveis a falsas alternativas, seja para combater a mudança climática, seja para diminuir os seus impactos.

Energia Nuclear? Não, obrigado!

Recentemente, James Hansen, cientista líder nas pesquisas sobre mudança no clima e ativista climático que inspirou a frase que dá nome a este blog fez, lamentavelmente, uma movimentação de defesa da "energia nuclear segura", como via para salvar o clima global da desestabilização que inevitavelmente emergerá como resultado da continuidade da queima de combustíveis fósseis como principal fonte energética. Com isso, ele se une a outras vozes proeminentes, como James Lovelock que, partindo da premissa correta de que "a mudança climática é o maior perigo que a humanidade já vivenciou", conclui erroneamente que ela "tem de usar a energia nuclear", na sua opinião a "única fonte de energia segura disponível". Ora, ainda que a estratégia de saída da crise climática possa criar dificuldades para a rápida abolição do uso da fissão nuclear, é evidente que a expansão desse setor é algo simplesmente inaceitável. Infelizmente, porém, o falso "verde criptonita" da energia nuclear está longe de ser a única falsa alternativa tecnológica com poder de sedução sobre a comunidade científica, incluindo alguns de seus mais proeminentes representantes.