segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pulgas "marxistas" ou Pé de Dragão Verde?

Semeando o quê, barbudo?
Por conta de uma polêmica no início de minha militância (na qual estava errado, diga-se de passagens), guardo até hoje a lembrança de uma citação de Lênin citando Marx, em que ele dizia: "Compreendamos também nós as tarefas e peculiaridades da nova época. Não imitemos aqueles marxistas de meia-tigela dos quais Marx dizia: 'semeei dragões mas a colheita deu-me pulgas.'" (em seu famoso texto, "As Tarefas do Proletariado na Nossa Revolução", de Abril de 1917, Lênin faz menção, aí, à "A Ideologia Alemã").

Do que conheço da abordagem devida da obra de Marx e de outros pensadores e pensadoras da transformação social e da revolução, a perspectiva é (ou deveria ser) sempre a de abordagem crítica, viva, atual. Como na Física, em que se superou a Mecânica Newtoniana por uma teoria mais ampla (que não a invalida, mas a generaliza) e a Relatividade de Einstein veio apoiada em novas informações de realidade (o Eletromagnetismo de Maxwell, o experimento de Michelson-Morley, os trabalhos de Lorentz e Poincaré), eu não concebo como as pessoas pretendam, em pleno século XXI, achar todas as soluções em textos da Alemanha do século XIX (por mais universalistas que se tenham pretendido) ou, muito menos, da Rússia de 1917 (estes, mais ainda, preocupados com respostas concretas e práticas e muitas vezes contaminados pela pressa e/ou pelo pragmatismo).


Vencer a preguiça e a ignorância. Um
bom remédio para que os que se dizem
marxistas não sejam apenas pulgas
penduradas na barba branca de Marx.
Daí, sempre que vejo pretensos "marxistas" desdenharem da crise ecológica e da mudança climática (e lançarem olhar atravessado ao Ecossocialismo), é a figura da frustração ante as pulgas que deveriam ser dragões que me vem à mente. É evidente que essa "pulguice" (um misto de preguiça, ignorância e dogmatismo) por parte de parcela significativa da esquerda em geral (incluindo a esquerda radical) precisa ser vencida. Para tal, é preciso dessacralizar o próprio Marx (duvido que ele tenha pretendido um lugar de santo) e perceber como ele, pensador do seu tempo, pesquisava e dialogava com o que havia de mais avançado no pensamento da época, inclusive nas ciências da natureza. É preciso localizar Marx no seu tempo, entender que tal crise ecológica apenas engatinhava então e saber, de forma criativa, fundamentada e intensiva, formular para os dias de hoje e seus 400 ppm de CO2.

A Curva de Keeling mostra a evolução da concentração de
CO2 na atmosfera, medida em Mauna Loa. A diferença entre
os valores atuais e os da era pré-industrial é maior do que
entre estes e os verificados no último máximo glacial.
Marx nasceu em 1818 e faleceu em 1883. A variação na concentração de CO2 durante a vida inteira de Marx foi de 284,1 ppm a 292,1 ppm. Isso é da ordem daquilo que hoje se verifica em menos de quatro anos (de 2009 a 2013, ela saltou de 387,4 para 396,5 ppm). Na época (século XIX), sequer havia medidas adequadas e monitoramento sistemático da concentração atmosférica desse gás, o que começou a acontecer em 1958, na estação de Mauna Loa, no Havaí, sendo que a recuperação de dados passados só foi possível posteriormente, examinando as amostras de ar aprisionadas no gelo da Groenlândia e da Antártica.

Mais do que isso, foi somente em 1861 que Tyndall reportou medidas de laboratório que mostravam que o CO2 (e outros gases) interagiam com o infravermelho, num artigo denominado "On the Absorption and Radiation of Heat by Gases and Vapours, and on the Physical Connexion of Radiation, Absorption, and Conduction" no jornal "Philosophical Transactions of the Royal Society of London" (e republicado no livro "Contributions to Molecular Physics in the Domain of Radiant Heat").

A Ciência do Clima tem suas raízes no
Século XIX, nos trabalhos pioneiros de
Tyndall e Arrhenius, mas floresceu de
forma exuberante ao final do século XX,
com satélites e supercomputadores. O
que essa ciência revelou, porém, não
agrada nem um pouco o sistema
capitalista
Para completar, somente 13 anos após Marx, é que os trabalhos de um cientista, utilizando a informação de Tyndall e a "Lei de Stefan" (hoje conhecida como Lei de Stefan-Boltzmann, deduzida em 1879) apontam claramente para a possibilidade de o aumento da concentração de CO2 provocar um aquecimento planetário. Coube a Lord Svante Arrhenius, no artigo "On the Influence of Carbonic Acid in the Air Upon the Temperature of the Ground", publicado na "Philosophical Magazine and Journal of Science", anunciar que "se a concentração de CO2 variar em progressão geométrica, a temperatura mudará em progressão aritmética" (uma lei de logaritmos usada até hoje, associada ao conceito de "sensibilidade climática de equilíbrio"). Arrhenius chegou a especular que a duplicação da concentração de CO2 levaria a um aquecimento global de 5-6°C. Isto nos parece um tanto superestimado nos dias de hoje, uma vez que a melhor estimativa que se tem para essa sensibilidade é de 3°C, numa faixa de 2 a 4,5°C, mas temos de admitir que o resultado de Arrhenius está longe de ser um grande erro (seus cálculos se aproximam de nossa atual estimativa superior).

Não sou entusiasta da ideia defendida por Bellamy Foster, de que Marx é um "profundo pensador ecológico", mas há que se reconhecer a atenção por ele dedicada aos trabalhos do químico Justus von Liebig, particularmente a obra "Organic Chemistry in Its Applications to Agriculture and Physiology" (de 1840). O termo "metabolismo", usado por Marx e em voga hoje em dia para designar as trocas entre a sociedade humana na produção de bens materiais e o restante da natureza que a cerca, é o equivalente ao termo alemão "Stoffwechsel", usado por von Liebig, em 1842. É um exemplo de apropriação do que de melhor a ciência (no caso a Química dos Solos) havia produzido para pensar a nossa sociedade. Como materialista e apoiado no que havia de mais moderno nessa ciência dos solos, Marx foi capaz de formular uma crítica certeira ao impasse do capitalismo no que dizia respeito à exploração da terra, resultante na degradação do solo. Em "O Capital", ele aponta:

"A produção capitalista acumula, por um lado, a força motriz histórica da sociedade, mas perturba, por
outro lado, o metabolismo entre homem e terra, isto é, o retorno dos componentes da terra consumidos pelo homem, sob a forma de alimentos e vestuário, à terra, portanto, a eterna condição natural de fertilidade permanente do solo."

E, logo em seguida, conclui:

"Cada progresso da agricultura capitalista não é só um progresso na arte de saquear o trabalhador, mas ao mesmo tempo na arte de saquear o solo, pois cada progresso no aumento da fertilidade por certo período é simultaneamente um progresso na ruína das fontes permanentes dessa fertilidade. [...] Por isso, a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social ao minar simultaneamente as fontes de toda riqueza: a terra e o trabalhador."

No entanto não havia, possivelmente, como ser um "profundo pensador" dessa relação metabólica no século XIX, quando a crise ecológica global estava longe de se descortinar como no presente e se manifestava quase que exclusivamente na questão da renda da terra e em poluição isolada, como no Rio Tâmisa. É provável que a maior manifestação do desequilíbrio metabólico seja o acúmulo ininterrupto, exponencial e extremamente perigoso de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre. Marx à sua época foi capaz de entender quão nociva (e inviável) a espiral da exploração da terra/solo quanto à sua fertilidade, dando ouvido a von Liebig. Hoje é preciso ouvir o que, de Arrhenius a James Hansen, Michael Mann, Richard Alley, Kevin Anderson (este, diretor do apropriadamente chamado Centro Tyndall) e toda a comunidade de Ciência do Clima dizem a respeito de uma espiral de muito maior escala, muito mais danosa e perigosa. É tarefa crucial dos que pensam a transformação social no século XXI. É tema fundamental para todos que militam por essa transformação no presente.

Oxalá o solo em que Marx plantou suas sementes não se mostre infértil e sem nutrientes e que nasça, nele, um "pé de dragão", cujos frutos sejam, perigosos para o sistema e não um mero incômodo, como a coceira causada por pulgas. Quem sabe, a esquerda do século XXI possa ser uma árvore ecossocialista, de onde brotem dragões verdes.

P.S.: Como coloquei antes, Marx afirma que "a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social ao minar simultaneamente as fontes de toda riqueza: a terra e o trabalhador". Absolutamente atual, com dois retoques: além da adequada neutralidade de gênero requerida para a nossa língua, incluindo também "a trabalhadora", terra ganha um "T" maiúsculo.

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