quarta-feira, 22 de julho de 2015

Por Água Abaixo

A agenda em resposta ao aquecimento global é um verdadeiro
fiasco, considerando que pelo menos desde o terceiro relatório
do IPCC (em 2001) as evidências são muito fortes sobre a
gravidade da crise climática. Mas ela é particularmente débil
no que tange à elevação do nível do mar, pois as projeções
dessa variável nunca pareceram motivo para grande alarde,
pelo menos na escala de décadas e até o fim do século. Pois
é... isto terá de mudar, com as novas evidências que surgiram.
"Eu vim plantar meu castelo naquela serra de lá, onde daqui a cem anos vai ser uma beira-mar", assim diz o refrão de uma bela música de Lenine intitulada "Lá Vem a Cidade". No mesmo álbum, na faixa "É Fogo", ele também questiona "o que será, com mais alguns graus Celsius, de um rio, uma baía ou um recife, ou um ilhéu ao léu clamando aos céus, se os mares subirem muito, em Tenerife? Até agora, porém, a elevação do nível dos mares parece estar sendo uma preocupação secundária em meio a todo o alvoroço envolvendo os impactos das mudanças climáticas, e ela tem aparecido com mais ênfase nas letras desse grande cantor e compositor pernambucano do que na agenda dos formuladores de políticas públicas e dos governos. Grave erro. Gravíssimo!


Projeções do IPCC sobre o nível médio dos oceanos têm sido apresentadas nos últimos relatórios de avaliação, mas a comunidade de Ciência do Clima sempre reconheceu a existência de grandes lacunas na capacidade de modelagem desse processo. Apesar de o cálculo da contribuição da expansão térmica para a elevação dos oceanos ser relativamente simples, a coisa se complica quando se trata de estimar a parte que cabe ao degelo nos mantos da Groenlândia e da Antártica. As projeções para o aumento de temperatura global sempre foram bem mais confiáveis do que aquelas para a elevação do nível do mar e os próprios cientistas olhavam com ceticismo para as estimativas muito modestas, apresentadas no 4º Relatório do Painel, de que mesmo no cenário mais extremo (o A1FI, onde FI responde por "fossil-intensive") não se teria mais do que uma "marola" ao final do século, com um máximo de 59 centímetros até 2100 (na época ainda eram usados os cenários das famílias A e B, depois substituídos pelos "RCPs", os cenários novos).

Projeção de elevação do nível do mar até o final do século
XXI para os cenários de forte mitigação (RCP2.6) e para o
cenário sem mitigação, ou "business as usual" (RCP8.5).
Avanços na representação da dinâmica dessas enormes massas de gelo e de sua resposta ao aquecimento global são bastante recentes e é quase certo que as projeções apresentadas pelo IPCCno 5º Relatório (o AR5) estejam também subestimadas. Afinal, durante as simulacões do CMIP5 (projeto que subsidiou a elaboração do AR5), somente uma parte dos modelos havia incorporado uma dinâmica de criosfera minimamente realista. Ainda assim, os resultados sugerem uma elevação do nível do mar entre 53 e 98 cm (mas em plena aceleração) para o cenário sem mitigação, o RCP8.5.

Mas evidências vão se acumulando no sentido de que a elevação do nível dos oceanos está sendo brutalmente subestimada, na velocidade e na amplitude. Um artigo na Science de 10 de Julho intitulado "Sea-level rise due to polar ice-sheet mass loss during past warm periods" ("Elevação do nível do mar devido a perda de massa nas calotas polares durante períodos quentes do passado"), de autoria de Andrea Dutton e outros/as, mostra que, com temperaturas semelhantes às de hoje ou ligeiramente mais quentes (como o suposto "limite seguro" de 2°C acima do período pré-industrial), o nível do mar era NO MÍNIMO 6 metros acima do atual.

Figura do artigo de Dutton et al. publicado na revista Science.
São mostradas as seguintes variáveis: concentração de CO2
em ppm, indicada no eixo da esquerda e pelos círculos verdes,
diferença de temperatura em relação ao período pré-industrial,
indicada pelos termômetros acima, nível do mar, indicado no
eixo à direita e pela altura das colunas em azul e dimensões
dos mantos de gelo da Groenlândia e Antártica comparados
ao presente. Os períodos analisados do passado são o MIS5e
(125 mil anos atrás), o MIS11 (400 mil anos atrás) e o Período
Quente do Plioceno Médio (3 milhões de anos atrás).
Como mostrado na figura, que acompanha o "paper" da Dra. Dutton (mostrada ao lado), hoje em dia estamos nos aproximando de 1°C de temperatura acima do valor pré-industrial (0,85°C para ser exato). Isso nos colocaria numa condição de temperatura parecida com a do interglacial anterior (o "5º Estágio Isotópico Marinho", ou MIS5), ocorrido há cerca de 125 mil anos.

Por ser relativamente recente, é possível estimar com razoável margem de segurança que o nível do mar naquele período, de temperaturas parecidas com as de hoje, e concentrações de CO2 da ordem de 300 ppm, estava 6 a 9 metros acima dos valores de hoje. Elevação tão significativa se deve principalmente à menor massa das calotas polares, com mantos de gelo reduzidos tanto na Antártica quanto na Groenlândia relativamente ao presente.

Mas há diferenças importantes nas características daquele interglacial e o Holoceno, especialmente nas condições da órbita da Terra. Há 125 mil anos, a órbita da Terra tinha maior excentricidade, isto é, era mais alongada.

Nesse sentido, as condições do Holoceno, com o aquecimento antrópico de quase 1ºC seriam mais parecidas com as que ocorreram quando do MIS11, o 11º Estágio Isotópico Marinho, há aproximadamente 400 mil anos. Durante aquele período, a órbita da Terra era mais parecida com a de hoje (quase circular) e o MIS11 (pelo menos em parte graças à baixa excentricidade da órbita) foi um interglacial particularmente longo.

Ora, se olharmos para o MIS11 como um melhor análogo das condições atuais, a fim de estimarmos a elevação do nível do mar que deverá ser causada pelo aquecimento global do presente, as esperanças também vão literalmente por água abaixo. Com apenas 286 ppm de CO2 na atmosfera, mas com temperaturas globais médias de 1 a 2°C acima do período pré-industrial, as estimativas são de que há 400 mil anos, os mares teriam estado de 6 a 13 metros acima do presente. Além da analogia com as características orbitais, vale frisar que o MIS11 tem outro aspecto similar à realidade do presente (algo que também vale para o MIS5): como hoje, o aquecimento era maior nas regiões polares. Com isso, os mantos da Groenlândia e da Antártica eram menores do que no presente.
"Titanis", ave predadora do Plioceno,
comparado a um humano. A "ave do
inferno" era um predador dominante
durante o Plioceno. Fonte:
http://www.prehistoric-wildlife.com

Acontece que nem no MIS5 nem no MIS11 tínhamos 400 ppm de CO2 na atmosfera. E esse é um parâmetro que não pode ser desconsiderado. Pelo contrário, ele agrava a situação, por óbvio. O problema aí é que não conseguimos encontrar nenhum análogo para a concentração atmosférica de CO2 a não ser se retornemos 3 milhões de anos no tempo, até o chamado "Período Quente do Plioceno Médio", quando as regiões polares eram muitíssimo mais quentes do que hoje (até 20°C acima), a calota polar do sul era menor e provavelmente o manto da Groenlândia sequer existia. Mas aí, as incertezas quanto ao nível do mar na época são grandes. O que se sabe é que quase certamente ele estava pelo menos 6 metros (provavelmente bem mais) do que nos dias de hoje.

O artigo, para resumir, é muito taxativo: "durante períodos interglaciais recentes, pequenos aumentos na temperatura global e um aquecimento nas regiões polares de somente poucos graus relativamente ao período pré-industrial resultaram num aumento ≥ 6 m no nível médio global dos mares". Esses 6 metros parecem ser a elevação do nível do mar mínima à qual já nos comprometemos se não determos as emissões de CO2 e demais gases de efeito estufa. Mas os 13 metros da estimativa máxima para 400 mil anos atrás sequer podem ser descartados. Nem mesmo podemos rejeitar a possibilidade de valores ainda maiores, se retornarmos 3 milhões de anos no tempo (à era do Titanis), até encontrarmos 400 ppm novamente.

Salvador, sujeita à elevação de 6m (acima) e de
13m (abaixo). 
Vale ressaltar que o artigo da Dra. Dutton e seus colaboradores, na Science, é um artigo de revisão, ou seja, que procura indicar o estado-da-arte da ciência no que diz respeito ao tema. E o intervalo apresentado de 6 a 13 metros de elevação do nível do mar pode representar uma mudança importante no entendimento de consenso sobre até onde pode ir o impacto desse processo se medidas muito profundas de mitigação não sejam adotadas imediatamente.

O ponto fundamental aqui é que, de acordo com o 5º capítulo do volume do mais recente relatório do IPCC que versa sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação (de responsabilidade do 2º grupo de trabalho, o WG-II), pelo menos 600 mil pessoas habitam a chamada "zona costeira de baixa altitude". Ou seja, somente 2% da área dos continentes (percentagem que está abaixo de 10m) é o lar de aproximadamente 9% da população mundial, isto é, estamos falando de um impacto que irá atingir em cheio regiões densamente povoadas. Com efeito, cerca de 65% das cidades do mundo com populações acima de 5 milhões de pessoas estão aí localizadas, segundo o AR5 do IPCC. Os maiores impactos? Terras abaixo de 10m representam 16% do território dos países insulares e nada menos que 466 milhões de asiáticos/as vivem a menos de 10 metros acima do nível do mar, segundo Anthony Oliver-Smith em seu relatório "Sea Level Rise and the Vulnerability of Coastal Peoples". A figura abaixo, do Banco Mundial, resume este quadro assustador. Los Angeles, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Cairo, Istambul, Mumbai, Shanghai, Tóquio... todas estão na alça de mira de uma elevação dos mares da magnitude que estamos a discutir aqui (que é ainda pequena se comparada aos 70 metros de elevação que seriam produzidos por um derretimento completo de ambas as calotas).

Porcentagem da população, por país, habitante da Zona Costeira de Baixa Elevação (LECZ, da sigla em inglês) e localização das megacidades dentro e fora da LECZ.  
Rio de Janeiro sob o efeito de 6m
(acima) e 13m (abaixo) de
elevação do nível do mar.
Aliás, para matar a curiosidade de como ficaria qualquer cidade no mundo com diferentes valores de elevação do nível dos oceanos, indicamos esta ferramenta do geology.com. Com ela, podemos efetivamente responder a Lenine e mostrar como ficariam um Rio (ao lado), uma Bahia (no caso, Salvador, acima) ou um Recife...

Resta ainda a questão de em quanto tempo mudanças muito significativas no nível do mar se dariam. Como Dutton et al. discutem, as estimativas sobre a velocidade das mudanças no passado é difícil de ser feita, pois fatores como a desestabilização de partes importantes dos mantos de gelo são certamente não-lineares. Afinal, ainda que as pessoas possam admitir que a elevação do nível do mar possa produzir impactos tão desconcertantes quanto os que estamos mostrando, geralmente elas os remetem para um futuro distante.

Será mesmo? Sobre isso, está sendo anunciada para esta semana a publicação de um novo artigo liderado pelo Dr. James E. Hansen na revista Atmospheric Chemistry and Physics mostrando projeções de degelo e elevação do nível do mar bem acima do que as que têm sido mostradas até agora pelo - por sua própria natureza cauteloso, cuidadoso e moderado - IPCC. O time de autores, num momento raro para um artigo científico, não doura a pílula diante dos resultados obtidos: "Concluímos que a continuidade de emissões elevadas trará, quase inevitavelmente, uma subida do nível do mar de vários metros provavelmente ainda neste século. O caos social e as consequências econômicas de tamanha elevação dos oceanos podem ser devastadores".

Adeus, Recife? Impacto da elevação do nível sobre a capital
pernambucana para os casos de 6m (esquerda) e 13m (direita)
Examinarei com cuidado o artigo assim que este vier a ser publicado, antes de me aprofundar neste debate acerca da velocidade de elevação do nível do mar. Mas embora o trabalho de Hansen e seus colaboradores não seja, pelo menos ainda, reflexo de um consenso científico, meu conselho desde já é o de que não o descartemos. Pelo contrário, ele deverá ser levado a sério. Até porque as projeções anteriores do IPCC sobre degelo do Ártico e elevação dos mares se mostraram subestimadas, algo cujas raízes debatemos em texto anterior no nosso blog e tomadores de decisão e formuladores de políticas deveriam preparar a sociedade para os piores cenários, ao invés de contar - irresponsavelmente - com a sorte. Esta, a sorte, pode terminar... debaixo d'água.


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