terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sobre os Graves Erros de Cowspiracy

A indústria da carne produz enormes impactos
ambientais e climáticos, mas, ao exagerá-los,
Cowspiracy termina prestando um desserviço:
confunde e desinforma.
O filme "Cowspiracy" apareceu como uma verdadeira bomba quando foi lançado em 2014. Até hoje é mencionado como um exemplo de financiamento coletivo muito bem sucedido e, tendo conquistado Leonardo DiCaprio como produtor-executivo, estreou no Netflix em 2015, ganhando muita audiência e com uma mensagem (pelo menos aparentemente) contundente. Não cheguei a encontrar informações a esse respeito, mas acredito que a essa altura o público atingido tenha se multiplicado bastante, podendo ter chegado a vários milhões de pessoas. É um fato que o debate alimentar tem sido omitido injustificadamente em vários momentos. E isso quando, juntando-se as emissões de metano e óxido nitroso da agropecuária com o desmatamento, chega-se a aproximadamente um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, não pode permanecer em tal situação. Em nosso blog, abrimos o debate com dois artigos e pretendemos voltar a ele mais extensivamente em outros momentos. Nesse contexto, portanto, considero que seria excelente se o debate do impacto ambiental e climático da produção de alimentos pudesse chegar, de forma didática e precisa, a um público bastante amplo, por meio de um documentário. Seria...


Seria, mas no caso de Cowspiracy não foi, nem de longe. Quando assisti ao filme, confesso que ele me trouxe uma série de incômodos por diversos erros científicos e políticos, mas em geral tinha a avaliação de que ele seria benéfico para a causa ambiental e climática. Ainda assim, incômodos à parte, tendia a ser condescendente com o filme,  pois achava apenas que tinha sido uma oportunidade perdida de mostrar as coisas de maneira séria, cientificamente coerente e com uma crítica sistêmica. Irritava-me particularmente o exagero sobre o papel da pecuária no clima (até porque não é preciso exagerar para que as pessoas entendam o estrago), mas não chegava ao ponto de me dispor a criticar pública e diretamente o filme, ou de confrontar aqueles e aquelas que tanto se empolgavam com sua mensagem. O que posso dizer, porém, é que minha visão tem mudado. Hoje, tenho muitas dúvidas do efeito geral benéfico (ou mesmo benigno) de Cowspiracy e temo pelos efeitos diretos e colaterais de algumas das mensagens do filme. Por isso, resolvi escrever este artigo de crítica a ele.

A PECUÁRIA É AMBIENTAL E CLIMATICAMENTE DESASTROSA MAS NÃO É A PRINCIPAL CAUSA DO AQUECIMENTO GLOBAL

Uma importante fonte de dados de Cowspiracy
usada nos ataques a ONGs como Greenpeace,
350.org e outras é um relatório de um "instituto
independente" cujo fundador dirige... uma ONG.
No mínimo estranho...
Com efeito, diversas pessoas de luta, ambientalistas, ativistas, nas redes e em reuniões, têm adotado Cowspiracy como referência sobre as causas do aquecimento global.  Ao ver o exagero da contribuição climática da pecuária sendo seguidamente reproduzido por ativistas, ecossocialistas, lutadores sócio-ambientais, convenci-me de que o filme presta, nesse aspecto, um grande desserviço. Como discuti neste artigo, o IPCC ao agrupar a agropecuária com o uso da terra, estima que globalmente esse segmento responda por emissões da ordem de 10 a 12 bilhões de toneladas de CO2e por ano (GtCO2e), ou pouco menos de um quarto das emissões globais, distribuídas em diversos subsetores, dentre eles a pecuária. Daí, considerando que os impactos do conjunto da agropecuária (não apenas a carne) responde por menos de 25% das emissões globais, dizer que a pecuária sozinha responde por 51%, como Cowspiracy chega a afirmar, é no mínimo irresponsabilidade (na seção de "fatos" do site do filme, está lá a afirmação, em letras garrafais: "A criação gado e seus subprodutos respondem por pelo menos 32 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, ou 51% de todas as emissões de gases de efeito estufa").

Primeiro, a irresponsabilidade não está apenas, nem sobretudo, no exagero em si, mas na relação com as demais fontes de emissão, especialmente os combustíveis fósseis. Se a agropecuária, incluindo desmatamento, responde por 25%, o resto (e quase todo o resto é queima de combustíveis fósseis para eletricidade, transporte, indústria, etc.) produz 75%. Mas se a pecuária sozinha respondesse por 51%, todo o resto só responderia por 49% e aí é o filme não se torna apenas equivocado, mas nocivo, por subestimar grosseiramente o papel central da indústria de combustíveis fósseis no colapso climático.

Não é necessário nenhum exagero para mostrar que a criação
de gado é um desastre para o clima, a biodiversidade, as reser-
vas hídricas, etc. Mas quando se adota esse tipo de exagero,
termina-se por minimizar outros problemas - que são, sim,
(pelo menos em determinados aspectos, como o clima) mai-
ores, como o uso de combustíveis fósseis, algo inadmissível.
Segundo, a irresponsabilidade se dá em relação à (única) fonte usada para chegar a esse dado falso. Trata-se de um relatório do Worldwatch Institute, repleto de problemas técnicos. Para se trabalhar informação tão crítica, chega a ser inacreditável que o documentário não tenha se baseado na literatura revisada e tenha simplesmente abraçado números tão inflados. Ignorar o que toda a comunidade científica produz, expressa nos relatórios do IPCC e no conjunto de artigos publicados na literatura científica revisada para abraçar um único texto porque este reforça o seu ponto de vista não é uma postura honesta. Perdoem-me os entusiastas de Cowspiracy, mas é uma postura pouco séria, que lembra inclusive... a dos negacionistas das mudanças climáticas...

Para quem estiver curioso de saber como foi que o Worldwatch chegou nesses números, eu fui examinar o relatório e vejam só... ele além de utilizar sempre estimativas superiores das emissões de gases por exemplo associadas à fermentação entérica, inclui a respiração dos animais. Metodologicamente é desprovido de base científica, pois respiração-fotossíntese é um binômio neutro em carbono. Por coerência, o cálculo sequer poderia excluir a respiração dos animais silvestre e dos próprios seres humanos. O que torna a pecuária (especialmente de ruminantes) não neutra em carbono é que o carbono que é sequestrado pelo pasto ao crescer sai da atmosfera na forma de CO2, mas parte dele é devolvido na forma de metano (CH4) cujo potencial de aquecimento global é estimado como 34 vezes maior. Esse desequilíbrio é que é a chave da contribuição da pecuária para a crise climática.

A redução global do consumo de carne, especialmente nos paí-
ses "desenvolvidos" e nas grandes cidades é evidentemente
necessária, mas eliminar a pesca artesanal ou a caça pratica-
da por comunidades originárias como alternativa de fonte pro-
téica pode carregar um perigoso pensamento neocolonialista. 
Aliás, é importante acrescentar neste ponto que mesmo a produção de vegetais, se for feita mediante a aplicação de fertilizantes nitrogenados, pode não ser neutra, ou na verdade longe disso, por conta das emissões de óxido nitroso, gás com potencial de aquecimento global 265 vezes maior do que o do CO2, o que mostra que uma produção agrícola de vegetais nos moldes daquela em que o agronegócio costuma aplicar pode ter forte impacto climático, mesmo sendo essa produção voltada para o consumo humano e não o de ração.

Cowspiracy, portanto, foge da ciência, defende números falsos e inventa que a maior responsabilidade pelo aquecimento global é a pecuária. Isso é mentira. Ela é, sim, um grande contribuinte para o processo, mas mesmo somando as emissões de metano e desmatamento, vem, globalmente, após a queima de carvão, petróleo e gás. Daí, embora eu tenha plena convicção de que seja necessário reduzir drasticamente o consumo de carne principalmente no mundo "desenvolvido" e considere todo o debate do sofrimento animal e da transição ao veganismo inteiramente legítimo, tal debate não pode ser dissociado da concepção de produção agrícola como um todo, da necessária transição para arranjos produtivos referidos como agroecológicos, sintrópicos, etc. e que guardam relação inclusive com dietas não-veganas de baixíssima pegada de carbono, como é o caso de muitas comunidades tradicionais e povos originários.

Algo que precisa ser acrescentado no debate é que o tempo de residência mais curto do metano na atmosfera, em comparação com o CO2, é ao mesmo tempo a virtude e a miséria das soluções climáticas centradas numa revolução alimentar (redução do consumo de carne e, no limite, veganismo). Cortar emissões de metano ajuda a conter o aquecimento global de curto prazo e pode nos dar fôlego ao enfrentamento de mais longo prazo, mas exatamente por isso não pode servir de "distração", ou seja, não pode nos desviar da tarefa fundamental de combater o efeito cumulativo do aquecimento, que se dá em maior escala através de m gás de efeito estufa de vida mais longa como o CO2. Mais do que isso, é importante dizer que reduzir drasticamente as emissões de metano não é só "cortar a carne". As emissões fugitivas, isto é, o vazamento de metano na exploração de petróleo e gás natural, são da ordem de magnitude das emissões de metano da pecuária (o AR5 do IPCC, estima que a contribuição global das emissões fugitivas e "flaring" é de 6% do total). Então, mesmo a lógica de atacar o impacto climático desse gás de vida média mais curta para ganhar algum fôlego imediato no enfrentamento da crise climática não pode se dar substituindo metano de gado bovino por metano de fracking, por exemplo...

EM MEIO A ACERTOS, MAIS ERROS SOBRE OS OCEANOS

Como se sabe, o colapso ecológico não se resume ao caos climático, incluindo aspectos como o uso da terra, a biodiversidade, o consumo de água doce, os ciclos biogeoquímicos e os demais limites debatidos em um artigo seminal por Röckstrom et al. (2009) e que ficaram conhecidos como "fronteiras planetárias".

A tabela de Hoekstra et al. (2008) traz indicações incômodas
não apenas para os consumidores de carne bovina mas tam-
bém para os apreciadores de chocolate, único produto vegetal
cuja pegada hídrica é comparável à do boi... 
No que diz respeito ao uso da água, os dados não parecem ser tão discrepantes em relação a estudos confiáveis. De fato, embora haja divergência nos números precisos e haja variabilidade de região para região, vários estudos convergem no sentido de que a pecuária tem uma pegada hídrica com efeito bastante grande. Por exemplo, Eshel et al. (2014) mostram que, com incertezas, a pegada hídrica da produção de carne bovina é cerca de 11 vezes maior do que a de outras carnes (além de requerer 28 vezes mais terra, emitir 5 vezes mais gases de efeito estufa e liberar 6 vezes mais nitrogênio reativo no ambiente). Hoekstra et al. (2008) se refere aos 15.500 litros de água para produção de 1 kg de carne bovina, muito acima da maioria dos produtos vegetais (mais de 100 vezes a pegada hídrica do alface, por exemplo), mas ainda assim, segundo esses autores, abaixo do chocolate, que demanda 24.000 litros de água por quilo do produto.

Do ponto de vista do uso do solo, Cowspiracy também acerta essencialmente, pois a criação de gado e o plantio de grãos para ração animal são ambos vetores violentos de desmatamento. É o caso do Brasil, mas novamente não é um problema exclusivo do gado, pois sobretudo a soja, esta em sua maioria voltada para a produção de ração animal, responde pelo desmatamento recente. Percebe-se que, de um jeito ou de outro, uma dieta com muita carne demanda muita terra (seja para a criação dos próprios animais em condições extensivas, seja para plantio dos alimentos para estes em regime de confinamento). E evidentemente desmatamento se traduz, dentre outros efeitos, em perda de biodiversidade dentre outros. Mostra que livre dos exageros e dos dados inflados, Cowspiracy poderia ter sido excelente ferramenta didática para o entendimento do colapso ambiental, não fosse ao mesmo tempo tão monotemático e tão alheio à ciência. Lamentável que esse pontencial tenha sido desperdiçado.

Muito nitrogênio reativo é efetivamente produzido na pecuária,
mas elegê-la como a grande ameaça aos oceanos é no mínimo
um exagero num contexto em que plástico e acidificação po-
dem simplesmente dizimar a biota marinha na escala global. 
Existe, portanto, um erro de origem em Cowspiracy. Novamente no site do filme, aparece a informação de que "a agricultura animal é a principal causa de extinção de espécies, zonas mortas oceânicas, poluição das águas e destruição de habitats". Há que se verificar os demais aspectos dessas afirmações, mas especialmente no que diz respeito aos impactos oceânicos, o exagero é evidente. A Surfrider, por exemplo, por ser uma organização que lida com os impactos nos oceanos e zonas costeiras se viu na obrigação de desmentir essa afirmação (que é mais uma que não vem da literatura científica revisada), afirmando: "apesar de a agricultura e o confinamento serem um fator relevante em muitos locais, outras áreas são dominadas por fontes urbanas de poluição". E acrescenta "há várias outras ameaças aos oceanos e costas, incluindo mal planejamento da ocupação litorânea, exploração marinha de óleo e gás, destruição e alteração de habitats e os impactos das mudanças climáticas".

De minha parte, não tenho receio em afirmar que se trata de mais uma "bola fora". Além da sobrepesca (que o próprio Cowspiracy também aborda) carece de qualquer sentido omitir o dano causado pelo plástico, sobre o qual há inúmeras evidências e pela acelerada acidificação oceânica, que ocorre concomitantemente às mudanças de temperatura dos mares. Neste ponto, não custa nada lembrar: tanto o plástico quanto a mudança de pH entram na conta principalmente não da indústria da carne, mas da indústria do petróleo e demais combustíveis fósseis!

AS "ONGs" COMO ALVO? UMA PÉSSIMA OPÇÃO!

ONGs como Sierra Club, Avaaz, 350.org e Greenpeace, cada
qual com suas virtudes e limitações têm, em geral, contribuído
para a elevação da consciência social sobre a questão climática.
Cowspiracy escolhe muito mal o alvo.
Além do foco da pecuária como "O" grande problema ambiental global e não como "UM" grande problema que se conecta a outros aspectos do colapso ecológico planetário que caracterizam o Antropoceno e desnudam o caráter predatório do sistema econômico em voga (o capitalismo), algo bastante evidente, e que guarda conexão com esse fato é o alvo escolhido. Além evidentemente da indústria da carne (este, um inimigo correto), o filme desde o início bate muito duro em ONGs ambientalistas.

A escolha de alvo, assim, me parece ser muito equivocada. Ainda que o foco fosse na indústria da carne, não se pode seriamente separar o conjunto dos setores diretamente anticlima e antiambiente (o que inclui o setor de energia, a indústria de combustíveis fósseis, a agroindústria em geral, a mineração, etc.). Sequer se pode separá-los da lógica geral de consumo em uma ponta e o suporte assegurado pelo capital financeiro em outra, especialmente quando se faz uma crítica tão dura a quem combate a exploração de petróleo, gás e carvão como se isso fosse um erro ou algo pior. Na verdade, o sentimento que o filme passa é que Kip Andersen e Keegan Kuhn, de posse de uma pretensa verdade absoluta, defendida quase que religiosamente ("o maior problema do clima é o consumo de carne"), tratam Greenpeace, 350.org e outras ONGs não apenas como equivocadas, mas praticamente cúmplices, cúmplices dessa estranha "conspiração da vaca".

Nesse sentido, não é que se trata apenas de algo desproporcional. É algo que deriva para a leviandade. Eu gostaria de ver mais campanhas contra a indústria da carne, gostaria que esse debate fosse mais internalizado junto aos movimentos sociais e ambientais, assim como eu gostaria que o entendimento da necessidade de abandonar os combustíveis fósseis também estivesse num patamar muito superior ao que está. Abrindo parênteses, devo dizer que estamos tão atrás nesse quesito que no Brasil sequer se consegue o convencimento em torno da necessidade de manter o pré-sal intacto, algo que é básico. Tenho também muitas críticas a posturas que vão de método a financiamento da parte de inúmeras ONGs, sou um opositor ferrenho às alianças praticadas e às sistemáticas participações em práticas de greenwashing por parte de boa parte delas, mas as considero aliadas e portanto as críticas que lhes faço são radicalmente distintas em tom e conteúdo das que disfiro contra os inimigos.

Aliás, embora eu não tenha encontrado nada desabonador em relação ao Worldwatch (que se auto-intitula um "instituto independente de pesquisa") e seu fundador, Lester Brown, é preciso apontar as contradições de Cowspiracy neste caso. Primeiro, que Lester Brown, além de um forte crítico das energias dirige/inspira uma ONG, o Earth Policy Institute (EPI). Mais, a atuação dessa ONG é muito mais restrita ao papel de "think tank", de formulador de políticas. É algo muito aquém da "pegada" de confronto das ONGs que o próprio filme Cowspiracy critica, como o Greenpeace (que publicou respostas ao filme, inclusive esta, disponível no site em português) e a 350.org (isto, aliás, me aproxima e me desperta bem mais simpatias por estas ONGs do que por aquelas que ficam apenas dentro de gabinetes). Em geral, não vejo nenhum motivo para considerar que o EPI tenha mais credibilidade do que o Greenpeace ou do que a 350.org e achei razoáveis o tom e o conteúdo das respostas do primeiro às críticas que lhe foram feitas (não encontrei uma resposta específica da 350 às críticas feitas em Cowspiracy). O "anti-onguismo" com cara de "teoria da conspiração" do filme neste caso não apenas lembra a postura de negacionistas desenvolvimentistas, como Aldo Rebelo, como se mostra muito seletiva. Vale para algumas ONGs que combatem a indústria fóssil, mas não para outras.

Por fim, reafirmando que advogo profundas transformações na produção de alimentos para combater a crise climática e ambiental, e há tempos digo que elas são necessárias e urgentes, não posso aceitar que, além de inflar as emissões da pecuária, distorcendo fatos científicos básicos, termine-se, voluntariamente ou não, "limpando a barra" dos combustíveis fósseis. A quem serve Cowspiracy, quando ataca ONGs como Greenpeace, 350 e outras e poupa Shell, Exxonmobil, BP e demais criminosos climáticos?

EM RELAÇÃO AO CLIMA, QUE CONSPIRAÇÃO EXISTE, COMPROVADAMENTE?

O mote de Cowspiracy é uma suposta "conspiração" para esconder que a o consumo de carne é, senão sozinho, pelo menos disparadamente, a grande causa do desastre ecológico global. Mas como mostramos, as evidências vão noutro sentido: a indústria da carne não tem um papel central isolado; antes tem um papel relevante que se soma ao de outros diversos agentes. Especificamente em um aspecto, o da mudança climática, não pode haver dúvidas da centralidade global da queima de combustíveis fósseis. Não pode haver conspiração para "esconder a verdade", se a verdade decantada pelo filme não existe ou, na melhor das hipóteses, é uma meia-verdade que foi distorcida por exageros e falta de compromisso com a ciência.

Não há evidências de uma "conspiração" para esconder o pa-
pel da pecuária no aquecimento global. Por outro lado, sobram
provas documentais de uma grande conspiração da indústria
fóssil, com a Exxon à frente, para esconder o que se conhecia
sobre o risco oferecido pela queima de petróleo, gás e carvão.
Na verdade, sobre o clima, muito além de uma "Cowspiracy" ("conspiração da vaca") existem uma "Coalspiracy" (do carvão), "Oilspiracy" (do petróleo), "Gaspiracy" (do gás). Com efeito, a única conspiração que foi de fato desvendada foi a de que as petroquímicas sabiam dos estragos do aquecimento global há 40 anos ou mais! O que existe é uma vasta quantidade de documentos, mostrando que principalmente a Exxon sabia de tudo, através dos cientistas que para ela trabalhavam e que essa empresa e outras deliberadamente esconderam tudo e financiaram negacionistas climáticos durante todo esse tempo.

Não há evidências, é claro, para fazer acusação de uma postura de má fé por parte dos film-makers responsáveis por Cowspiracy, até porque Leonardo DiCaprio, agora no projeto, tem sido efetivamente uma figura pública bastante importante na defesa do clima. No entanto se fôssemos procurar pelo em ovo, pulando de conspiracionismo em conspiracionismo sem apresentar evidências, daqui a pouco alguém poderia dizer que seriam eles que estariam servindo à indústria fóssil, desviando a atenção da questão climático do maior inimigo para o segundo maior. Então fica evidente que o mote "conspiratório" é péssimo, um beco sem saída. O mote tem de ser o das evidências...

E o que estas dizem? Que sim, precisamos falar da pecuária, precisamos combatê-la, defender a agroecologia, uma redução significativa do consumo da carne, uma transição alimentar em paralelo à transição energética; que precisamos parar de adiar o debate do sofrimento animal, ligando-o ao debate climático, hídrico, etc., mas sem uma visão de colonizador; que precisamos criticar quem deve ser criticado no ambientalismo, mas de forma justa e fraterna. Mas dizem que não se pode colocar o combate à pecuária em primeiro plano, quase que em oposição à luta urgente e fundamental para encerrar de uma vez as atividades da indústria fóssil; que não há espaço para veganos andando de SUV e abusando do consumo de bens produzidos em indústrias movidas à queima de óleo, gás e carvão; dizem claramente que estes precisam ficar no chão; que a crítica precisa ser mais totalizante, compreendendo a contradição insolúvel entre um sistema expansionista de produção de mercadorias e os ciclos e fluxos que compõem o metabolismo do Sistema Terra; que o que está colocado é, emfim, uma guerra de sistemas e não uma "conspiração de vacas".

5 comentários:

  1. parabéns pelo texto, alexandre! como alguém preocupado com a sustentabilidade planetária e que atua com projetos ambientais de combate ao desmatamento na amzônia, fiquei bem impactado com o filme, mas também um tanto desconfiado de dados e posturas. foi muito bom ler seu embasado contraponto, especialmente na comparação de impacto agropecuário com o fruto de queima de combustíveis fósseis e também na diferenciação da pecuária bovina de outras modalidades de criação animal para consumo humano. :-)

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  2. Ótimo texto. Assisti Cowspiracy e o tom conspiratório nunca me agradou. Smp digo q as pessoas assistam o filme c ressalvas pois várias das informações dadas não foram revisadas. Dito isso, ainda acho um doc importante p dispertar nas pessoas o sentimento de choque, p q, posteriormente, eu possa explicá-las c maior acurácia a verdade. Novamente, ótimo texto.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Puxa, muito obrigada pelo texto, eu realmente já acreditei nessa ideia que a agropecuaria era uma das maiores responsáveis pelo aquecimento global. Mas depois de assistir Cosmos e ler seu texto, me fez refletir. Eu sou adepta do veganismo por questão de saúde, mas nunca entendi esse boom de "estilo" de vida vegan. Nunca entendi como pessoas podiam acreditar que apenas parar de comer produtos de origem animal ia fazer um super diferença, mas continuam adorando o capitalismo e todo sistema. Seria preciso sair desse planeta pra realmente ajudar todos os seres. Muito esclarecedor você citar que cortar o metano daria uma sobrevida, porque isso me leva a concluir porque há esse interesse em converter uma parte da população ao veganismo.

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  5. Gostei do texto, acho que ele chama a atenção para algumas das falhas no posicionamento do documentário. Principalmente quanto a controversa afirmação de que a agropecuária é a maior causadora de poluição na atmosfera, ainda não tenho certeza quanto a nenhum dos dados, vou pesquisar mais sobre para tirar minhas próprias conclusões quanto esse assunto, mas 25% ou 51% de emissão é o suficiente para uma reflexão sobre o consumo de carne. Não acho que o filme preste desserviços, principalmente quanto a abordagem com as ONGs, eu cheguei a ler a resposta do GreenPeace e eles confirmam que não entram nesse assunto por ser muito duro tentar mudar os hábitos das pessoas, acho que a forma foi só uma diferente abordagem e não um desserviço. Enfim, pra mim o documentário me despertou um sentimento de que ser sustentável com o meio ambiente é ser mais consciente socialmente e com isso o menor consumo de carne.

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