quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Cadê o gelo que estava aqui?, parte II

Gelo marinho ao redor da Antártica em 16/11/2016,
comparado com a mediana no período de 1981-2010.
Mas o sistema parece ter alterado seu comportamento
e o gelo marinho encolheu muito este ano. Fonte:
National Snow and Ice Data Center (NSIDC)
Há poucos dias publiquei um artigo mostrando que, apesar de não ter sido batido o recorde de degelo no verão do Ártico (a menor área coberta por gelo continua a ser aquela alcançada em 2012), desde que se tem registro a recuperação do gelo marinho nunca foi tão lenta. A tendência, como mostramos nesse artigo anterior, é nítida no sentido de estabelecimento de recordes negativos para a cobertura de gelo no inverno.

Só que a perda de gelo ao redor do polo norte não é exatamente novidade. Embora o processo esteja se dando de maneira bem mais acelerada do que indicado pelas primeiras projeções climáticas, com recordes negativos de cobertura de gelo e temperaturas até 20°C acima do normal, a tendência de redução da massa de gelo no Ártico (tanto o gelo marinho quanto o gelo do manto da Groenlândia quanto o permafrost) já vem se acelerando há pelo menos duas décadas. Novidade mesmo é que o gelo marinho ao redor da Antártica, que vinha apresentando uma tendência a se expandir nos últimos anos, está neste momento ocupando uma área muito abaixo do normal.



"O ÁRTICO ESTÁ DERRETENDO, MAS A ANTÁRTICA ESTÁ GANHANDO GELO"

Parte da Antártica está ganhando gelo. Parte está perdendo.
Ao fazermos o balanço completo, embora o continente tenha
ganho gelo no início da década de 1990, ao final de 2012, a
perda total já tinha sido de 2 trilhões de toneladas em relação
a esse período. Fonte: IPCC AR5 (2013).
Esta frase é quase um mantra dos negacionistas da mudança climática. Mas embora não seja uma mentira flagrante como tantas do repertório dessa turma, dita desta forma sempre foi, na melhor das hipóteses, uma meia-verdade.

Primeiro, é preciso que sejamos precisos naquilo a que nos referimos, pois existe o gelo marinho, que flutua sobre o oceano fora dos limites das ilhas e continentes, e o gelo continental, destacando-se, neste último caso, os mantos da Groenlândia e da Antártica, com espessuras máximas de até 3 km e 4 km, respectivamente.

Dito isto, temos duas situações bastante distintas sobre o continente e sobre o mar. No que diz respeito ao gelo continental, existe um balanço delicado entre ganhos e perdas. Um dos efeitos imediatos do aquecimento global, como se sabe, é o aumento do teor de umidade na atmosfera: quanto mais quente o ar, mais ele é capaz de armazenar umidade (o que inclusive provoca o chamado "feedback do vapor d'água").

Variações na espessura do gelo continental sobre a Antártica,
em cm/ano, em três períodos. A perda de gelo bastante acen-
tuada na porção oeste do continente, mas há ganho a leste.
Fonte: IPCC AR5 (2013).
Quando a atmosfera é muito fria, como no caso da Antártica, praticamente não existe vapor d'água e portanto pouca neve é produzida. Com o aquecimento e uma maior quantidade de vapor d'água na atmosfera, a quantidade de neve produzida também aumenta. Daí, tanto o ganho de gelo por acúmulo de neve quanto a perda por derretimento tendem a crescer num clima mais quente. O que tem acontecido na prática é que parte do continente tem perdido gelo a uma taxa bastante significativa (principalmente a região oeste, na proximidade do Mar de Amundsen) enquanto o restante tem ganho gelo numa velocidade modesta (vide figura ao lado). O balanço final foi mostrado na figura acima e indica uma perda total de 2 milhões de toneladas, o equivalente a uma elevação do nível do mar da ordem de 6 mm. Ou seja, considerando o manto continental, é falsa a afirmação de que a Antártica esteja ganhando gelo.

Evolução da área de gelo marinho no hemisfério sul
Fonte: NSIDC
Já do ponto de vista do gelo marinho, é verdade que o mesmo se expandiu ao redor da Antártica nos últimos anos, como mostra a figura ao lado. A tendência ao longo de aproximadamente 35 anos foi de uma lenta expansão, da ordem de 0,9% por década. O aparente paradoxo foi investigado há alguns anos por Liu e Curry, cujos resultados foram publicados na revista PNAS.

Novamente a chave para entender o processo está no ciclo hidrológico. Mais neve implica numa maior entrada de água doce junto à superfície quando esta derrete. Só que a água doce é menos densa e permanece acima da água salgada, bloqueando a troca de calor entre correntes oceânicas e o gelo marinho, preservando-o parcialmente do derretimento.

Estudos já apontavam a possibilidade de que a expansão do
gelo marinho ao redor da Antártica, embora associada com a
influência do aquecimento global sobre o ciclo hidrológico,
fosse algo passageiro e viria a se reverter em algum momento.
A série diária de cobertura de gelo mostrada na figura parece
mostrar que esse momento chegou. Fonte: NSIDC
No entanto, como os pesquisadores já apontavam, trata-se de mais uma situação de equilíbrio tênue e, nas simulações que eles fizeram, em algum ponto do início do século XXI essa tendência se reverteria em função do aquecimento tanto da atmosfera quanto das próprias correntes oceânicas, fazendo com que a barreira da água de menor salinidade não consiga mais bloquear o fluxo de calor. E aí, como mostra bem o final do gráfico acima, surge uma reversão na tendência de expansão do gelo, com uma redução da área de gelo ocorrendo por três anos consecutivos, sendo que a queda de 2015 para 2016 foi particularmente acentuada. Talvez seja prematuro afirmar que isso é uma confirmação da tendência apontada por Liu e Curry, mas certamente vale a pena deixar as barbas de molho e observar o comportamento do sistema nos próximos anos.

Gráfico do gelo marinho global (soma do Ártico e Antártica).
Alguma dúvida de que não estamos nem próximos de uma si-
tuação de normalidade? Fonte do gráfico: NSIDC
Em se confirmando que agora o gelo marinho do sul se junta ao gelo marinho do norte numa trajetória de declínio, não estamos exagerando ao afirmar que condições de desestabilização do sistema climático terrestre se agravam significativamente. A figura ao lado mostra a área de gelo marinho global, ou seja, a soma dos dois continentes, e é evidente que a curva de 2016 mostra algo completamente fora do normal, com um comportamento totalmente divergente dos outros anos.

Quando juntamos a contribuição dos dois hemisférios, temos tipicamente dois picos na cobertura de gelo marinho global: em junho e em novembro. No início de novembro, tipicamente o gelo da Antártica já iniciou a redução sazonal, mas ainda está próximo dos valores máximos de setembro-outubro. Por sua vez, o gelo do Ártico em geral já está em franca recuperação após a passagem do equinócio e a chegada do outono.

Acontece que este ano tivemos a combinação do pior dos dois mundos: o gelo da Antártica, cuja área já estava abaixo do normal, começou a declinar mais cedo e de maneira bem mais acentuada do que a média e, ao mesmo tempo, o gelo do Ártico nunca teve uma recuperação tão lenta em todo o registro.

Os pólos podem ser comparado as aparelhos de ar condi-
cionado planetários. O declínio do gelo no Ártico mostra
que um desses aparelhos, o do norte, está pifando. No sul,
a expansão inicial do gelo marinho parece ser análoga à
formação de gelo num ar condicionado desregulado. Basta
que o problema se agrave um pouco, para que, incapaz de
resfriar como antes, esse gelo desapareça e o equipamento
aqueça até pifar...
Aliás, no polo norte, mesmo na total escuridão com a "noite polar", estão sendo registradas temperaturas mais de 20°C acima do normal e toda a região ao norte do Círculo Polar Ártico está em média 7°C mais quente do que no período pré-industrial. Ninguém precisa de sol para manter o Ártico aquecido, basta o efeito estufa intenso de uma atmosfera contendo CO2 numa concentração 45% acima dos níveis pré-industriais.

No polo sul, onde as temperaturas são normalmente bem mais baixas do que no norte, sabíamos que os efeitos iriam demorar mais a aparecer. Desejávamos, na verdade, que demorasse bem mais. Mas pelo visto, a realidade está negando essa esperança. As calotas polares são como dois aparelhos de ar condicionado que contribuem para regular a temperatura planetária. Já sabíamos que o ar condicionado do norte estava enguiçando. Mas acabamos de "ouvir um ruído estranho" no equipamento do sul...

Um comentário:

  1. Boa noite Alexandre. Conheci a pouco mas ja me tornei fa do seu blog. Parabens. Aproveitando gostaria de uma ajuda sua sobre algo que me parece contraditório. No seu segundo paragrafo temos "Só que a perda de gelo ao redor do polo norte não é exatamente novidade. Embora o processo esteja se dando de maneira bem mais acelerada do que indicado pelas primeiras projeções climáticas, com recordes negativos de cobertura de gelo e temperaturas até 20°C acima do normal, a tendência de redução da massa de gelo no Ártico (tanto o gelo marinho quanto o gelo do manto da Groenlândia quanto o permafrost) já vem se acelerando há pelo menos duas décadas".

    Porem essa afirmação nao fecha com as projeções feitas em meados de 2007, onde supostamente ja deveriamos estar praticamente sem cobertura de gelo no artico. Me lembro inclusive de um discurso do Sr. Al Gore dizendo que o Artico deixaria de existir em 7 anos... Até onde sei o Artico esta derretendo, mas a cobertura de gelo segue la, e ainda tem muito gelo pra derreter (piada infame)...

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