quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Efeito Estufa, Efeito Trump

Dentre outros inúmeros absurdos, Trump defendeu o incentivo
à exploração do carvão para "gerar empregos"
Aparentemente surpreendendo a ampla maioria dos institutos de pesquisa e contrariando a vontade de amplas parcelas "establishment" e da mídia, que se alinharam com a candidata do Partido Democrata Hillary Clinton, os EUA elegeram o bilionário Donald Trump como seu próximo presidente em mais um episódio que indica um preocupante avanço de posições populistas de direita e uma perigosa ressonância para discursos de ódio. Não podemos esquecer que além de suas posturas abertamente xenófobas, racistas e machistas, é muito bem documentado o fato de que Trump é um negacionista climático de carteirinha. Tendo isso em conta, uma pergunta que surge, especialmente tendo a eleição de Trump caído como uma bomba na semana em que se iniciou a COP22 em Marraquech, é sobre quão danosa poderá ser a estadia desse senhor na Casa Branca para o clima.


TRUMP: NEGACIONISTA BIZARRO

O famoso "tweet" de Trump há 4 anos. Dispensa comentários.
O diretor de relações públicas da Sociedade Americana de Física, Michael Lubell define Trump como "o primeiro presidente anti-ciência dos EUA", o que não é pouca coisa para um país que já foi dirigido, por exemplo, por Ronald Reagan e duas gerações de "Georges Bushes". Em entrevista à Revista Nature, ele afirma que as consequências para a ciência em geral serão "muito, muito severas". Evidentemente, as preocupações são maiores justamente em meio à comunidade de cientistas do clima. O colega Michael Mann, por exemplo, admite "temer pelo país e temer pelo planeta".

As preocupações não podem ser consideradas exagero. O presidente eleito dos EUA chegou a afirmar que "o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses", com o objetivo de "comprometer a competitividade da economia norte-americana" (importante assinalar que negacionistas em países em desenvolvimento como o Brasil concordam com seus semelhantes estadunidenses numa coisa, isto é, que o aquecimento global seria uma "farsa", mas invertem o argumento, dizendo que foi algo criado pelos EUA e demais países desenvolvidos para frear o crescimento econômico de Brasil, China, etc., o que por si só já evidencia o furo dessas teorias de conspiração que se excluem mutuamente). Durante o festival de horrores que foi sua campanha eleitoral, ele declarou seu amor pelo carvão, prometendo recriar postos de trabalho nesse setor da economia (discurso maliciosamente dirigido para o setor de desempregados, o que mostra o quanto é preciso que a esquerda evolua, no século XXI, além da simples defesa de "emprego e renda") e chegou ao cúmulo de dizer que "cancelaria o Acordo de Paris".

CANCELAMENTO, NÃO. INVIABILIZAÇÃO PRÁTICA, SIM.

Trump não pode obviamente "cancelar" o Acordo de Paris. Mas
pode, sim, fazer estragos grandes nas políticas ambiental e ener-
gética dos EUA, o que por si só já levaria a maiores emissões
de CO2, bem como prejudicar violentamente o frágil consenso
político existente em torno do Acordo. Subestimá-lo pode ser
não apenas uma ilusão desprovida de sentido. Pode ser um ato
mortal de autoengano.
Trump obviamente não tem autoridade para "cancelar" o Acordo de Paris. É um tratado internacional multilateral, já tendo sido reunidas as condições necessárias (número de países e porcentagem das emissões) para sua entrada em vigor, o que veio a ocorrer no dia 4 de novembro deste ano. Os países signatários também não podem simplesmente "desistir" do acordo a qualquer hora, já que o tratado prevê que a retirada do mesmo só é possível daqui a três anos, sendo necessário ainda cumprir um ano de aviso. Trump obviamente pode preparar essa retirada e, especialmente na terrível eventualidade de conquistar um segundo mandato, pode consolidar uma situação desastrosa em que os EUA dão as costas ao Acordo de Paris da mesma forma que fizeram com o Protocolo de Kyoto.

Claro que a retirada aberta do tratado encontraria resistência e mobilização popular, o que poderia dificultar a vida de Trump, principalmente nas proximidades da disputa pela reeleição. Mas ele, infelizmente, tem outros trunfos. Um deles seria, seguindo a lógica da "doutrina de choque", agir rapidamente e retirar os EUA da própria Convenção-Quadro da ONU para Mudança Climática (a UNFCCC), assinada em 1992, e que funciona como guarda-chuva para todos os acordos climáticos.

Outro caminho para Trump... seria simplesmente sabotar o Acordo. Os avanços trazidos por Obama, embora reais, foram insuficientes e o horizonte de tempo da "Contribuição Nacionalmente Determinada" dos EUA apresentada em Paris se limita a 2025, devendo a apresentação de novas metas, para 2030, em plena "gestão" (se é que cabe a palavra) Trump. Este, portanto, pode simplesmente ignorar as metas vigentes e não apresentar nada em 2018. Isso representaria um desastre tanto pelo peso que o país tem nas emissões (17% das emissões globais em 2015) quanto pelo pelo político, pois mesmo uma saída, não de direito mas de fato, certamente exerceria uma enorme tensão centrífuga, arrastando muitos outros países para posições de desrespeito às metas voluntárias de redução de emissões.

CARVÃO, FRACKING, OLEODUTOS: TRUMP DEFENDE ACIONAR TODAS AS BOMBAS DE CARBONO

Embora nem tudo possa ser resumido à política do governo federal e vários avanços nos EUA estarem acontecendo nos níveis de estados e cidades, a sabotagem do Acordo de Paris por parte de Trump pode ser facilmente cumprida.

Trump coloca um capacete de minerador de carvão. Horrível.
Só precisamos pensar que igualmente vergonhoso eram as
imagens de Lula e Dilma (comumente do lado de figuras do
naipe de Eike Batista e Sérgio Cabral) com as mãos sujas de
petróleo...
O presidente eleito, em sua campanha, prometeu reavivar a "cadeia produtiva" do carvão mineral, que se encontrava em franco declínio. Isso implica incentivos tanto à mineração quanto a manutenção da operação de grandes termelétricas que usam esse combustível. Seu programa, baseado na ideia de "domínio da energia como objetivo da política econômica e da política externa dos EUA", fala abertamente em "liberar [a exploração de] 50 trilhões de dólares em reservas inexploradas de xisto, petróleo e gás natural, além de centenas de anos em reservas de carvão limpo" e em "abrir concessões federais em terra e no mar, eliminar a moratória sobre o carvão, e abrir depósitos de xisto".

Mas o fato é que mesmo que Trump não cumpra nada do que prometeu para esses setores mais poluentes e emissores e que as emissões dos EUA não cresçam, a simples mudança da tendência de queda dos anos de Obama para uma estagnação dessas emissões já pode atingir duramente as tênues esperanças abertas pelo Acordo de Paris. É preciso ter em mente a tragédia que é o país mais poderoso do mundo, maior emissor histórico e segundo maior emissor da atualidade não reduzi-las rápida e drasticamente.

Embora as estimativas da Lux Research possam ser por demais
benevolentes para Hillary (apostando que ela conseguiria cum-
prir o compromisso de Obama ou dele se aproximar), o cenário
com Trump é efetivamente desanimador, com a expectativa de
ele retroceder em boa parte os avanços obtidos na redução das
emissões nos 8 anos de administração de Obama.
Uma vez que mesmo as ações da administração de Obama foram insuficientes, qualquer desvio da trajetória traçada pelo presidente de saída na política energética e climática, já configurariam um quadro ruim (como possivelmente seria o caso no "cenário Hillary"). Então, as sinalizações de Trump, que apontam para um quadro bem pior, de aumento das emissões, não pode ser minimizado ou subestimado. Estamos, sim, diante de um desastre, como sugere o estudo da Lux Research. Não posso dar garantia sobre a fidedignidade do dado apresentado, que talvez tenha sido otimista para o "cenário Hillary", mas o fato é que o estudo conclui que um mandato de Trump poderia representar até 3,4 bilhões de toneladas de CO2 a mais do que um mandato da candidata derrotada caso ele seja reeleito.

Nesse contexto, algo particularmente preocupante é a possibilidade real de desmonte da estrutura de gestão ambiental que Obama utilizou como principal ferramenta para sua política climática, com destaque para a Environmental Protection Agency (EPA).

O ATAQUE À EPA E AO DEPARTAMENTO DE ENERGIA

Algumas pessoas têm insistido no argumento de que a situação não é tão grave, que Trump irá moderar seus discursos e ações neste tema e em outros, mas... os primeiros indícios não vão nesse sentido, pelo contrário! E os ataques de Trump já começaram precisamente sobre a EPA e sobre o DOE (Departamento de Energia).

Trump está compondo a sua equipe de transição e o indicado para realizar essa tarefa junto à EPA é ninguém menos que Myron Ebell, do Competitive Enterprise Institute, um conhecido negacionista, que mesmo recentemente proferiu uma montanha de afirmações bizarras sobre a questão climática, incluindo ataques à encíclica do Papa Francisco. Ebell chegou a classificar a adesão de Obama ao Acordo de Paris uma "usurpação do poder do Senado", classificou como "ilegal" os atos da administração Obama que limitam as emissões das usinas termelétricas (o "Clean Power Plan").

Indicado de Trump para liderar a "transição" no Departamento
de Energia é lobista que tem como clientes os Irmãos Koch, os
mais perversos magnatas dos EUA, cujo império inclui, claro,
enormes investimentos em combustíveis fósseis.
Para o Departamento de Energia, o quadro não é nem um pouco melhor. A escolha de Trump foi a de Michael McKenna, presidente da MWR Strategies, uma "empresa" especializada em lobby! Dentre seus clientes, a Scientific American destaca nomes que impressionam: Koch Companies Public Sector LLC, Southern Company Services, Dow Chemical Co. and Competitive Power Ventures Inc. Os irmãos Koch são conhecidos bilionários do setor petroquímico, além de financiadores ativos da direita nos EUA e recomendamos o documentário "Koch Brothers Exposed" (com legendas em português) para que os/as leitores/as tenham noção de quem se trata. A Southern Company e a Competitive Power Ventures são grandes empresas de eletricidade, que atuam no setor de gás natural. Por fim, a Dow Chemical atua em diversos setores da indústria tendo em seu currículo, dentre outras coisas, a produção de agente laranja para a Guerra do Vietnã.

Em se confirmando o desmonte, ou um simples enfraquecimento da EPA e a reversão de curso no DOE, a administração Trump abrirá caminho para que empresas altamente emissoras atuem de forma muito mais "livre" e desregulamentada. Alguma dúvida de que isso só poderá levar a práticas mais destrutivas e a um aumento das emissões do setor de energia?

REAÇÃO DO MERCADO: MAIS DIDÁTICA IMPOSSÍVEL

Ações das petroquímicas, como as da Exxon-Mobil subiram
sem parar nos últimos dois dias,
A eleição de Trump chacoalhou o mercado, com queda mais ou menos generalizadas nas bolsas de todo o mundo. Não chega a ser inesperado, pois Hillary Clinton era, sim, a favorita do sistema. Mas é enganosa, simplista e perigosa qualquer incursão no tipo de raciocínio do tipo "se não é o favorito do sistema, melhor para nós". É preciso olhar para dentro do sistema, de sua dinâmica e sua heterogeneidade para entender que, tendo ele suas próprias contradições internas, essa lógica pode ser bastante furada.

Acha que as petroquímicas estão felizes? A grande festa quem
está fazendo mesmo é a velha indústria do carvão!
No que diz respeito ao setor de energia, a reação das bolsas não poderia ter sido mais nítida e didática. Ontem, após a queda inicial de quase todas as ações na bolsa de Nova Iorque, o comportamento das ações das petroquímicas foi de recuperação imediata e as ações dessas companhias seguem subindo ao longo do dia de hoje. No caso da Exxonmobil, a alta do dia de ontem foi de 1,1% (2,6% acima do valor de abertura!) e no momento em que escrevo, a alta de hoje está na casa de 1,2%, acumulando alta de 2,3% em dois dias. Shell, BP, Chevron e Conoco-Phillips apresentaram altas acumuladas de 1,6%, 1,5%, 0,4% e 0,4% e a exceção fica mesmo por conta da China Petroleum, cujas ações recuaram 4,9%.

Ao contrário das fósseis, empresas de renováveis despenca-
ram no mercado de ações.  
Mas é evidente que nada supera o entusiasmo em torno do carvão! A Arch Coal, por exemplo, teve um dia de glória ontem, com suas ações subindo 10,4%, acumulando nada menos que 15,9% em dois dias. A Cloud Peak Energy ontem viu suas ações subirem 13,3%. A Peabody, cujo fechamento era dado como certo, vejam só... viu suas ações disparando numa alta recorde de 49,8%!

Por outro lado, o que tem acontecido com as ações de empresas de energias renováveis? Do lado da solar, a Solar City mostra queda acumulada de 8,2% nestes dois dias; a Sun Power, queda de 14,4%; a First Solar, queda de 7,0%; a Canadian Solar, 16,5%. As produtoras de aerogeradores como a Vestas e a Nordex também viram suas ações despencarem, com quedas respectivamente de 10,5% e 16,2% nestes dois dias.

SE O MERCADO NÃO RESOLVE A CRISE CLIMÁTICA, ONDE ESTÁ A SAÍDA?

Não morro de amores pelas grandes companhias de energia eólica, nem mesmo pelas de solar. Mas ver as ações destas despencarem enquanto as do "Big Oil" e "Big Coal" sobem e em alguns casos até disparam, é aterrador. O "Efeito Trump" não pode ser subestimado. O histórico de suporte ao negacionismo e os ataques à Ciência do Clima perpetrados por essa figura abjeta não poderiam jamais ter sido tratados como apenas um conjunto inofensivo de bravatas. Até porque a simples vitória e a expectativa de que se cumpram as promessas de Trump de cortar regulações, enfraquecer a Agência de Proteção Ambiental e - no limite - não respeitar o Acordo de Paris já foi suficiente para reorientar completamente os investimentos no mercado de ações, detonando as energias renováveis e fortalecendo o carvão, petróleo e gás.

Revela-se uma grande fragilidade das empresas de renováveis, mesmo das maiores companhias desse setor, em comparação com as gigantes fósseis e, sobretudo, fica nítido que o mercado não tem nenhuma capacidade em atuar favoravelmente no sentido da solução da crise climática. Pelo contrário, o mercado, que alguns ridiculamente personificam, atribuindo-lhe vontade e humor, no máximo é dotado de um instinto primário. É capaz apenas de farejar o lucro a curto prazo e oportunisticamente se guiar pelos interesses de ganho imediato. Do ponto de vista do clima, ele rapidamente abandonará investimentos em setores que possam contribuir para reduzir o risco climático ao sabor da conjuntura política, como fez nestes dois dias. Pior, abraça e continuará a abraçar as mais destrutivas indústrias e tecnologias, caso isso sacie a sua fome de lucro e crescimento.

Na COP22, prevalecem o choque e a perplexidade, mal disfarçados com declarações, como a de Ban-Ki-Moon, de contarem com Trump para a continuidade do processo de solução da crise climática por cima. Mas é evidente que todos sabem que esse caminho, que possui tantos limites demonstrados repetidamente, ficou ainda menos viável com a eleição desse canalha.

Nem mercado, nem negociações de cúpula. Com Trump, fica
mais nítido que se há saída, ela está na luta social.
Ao mesmo tempo, porém, diversos protestos eclodiram contra a eleição de Trump. Há vários meses, indígenas e ambientalistas têm resistido contra o oleoduto de Dakota. As ocupações de escolas e universidades no Brasil, a resistência de nossos sem-terra e sem-teto, de quilombolas, ribeirinhos e povos originais e tantas lutas ao redor do mundo parecem ser o único terreno ainda fértil que nos resta. "O mundo não acabou", dizem alguns sobre a eleição de Trump, o que mais parece uma tentativa de autoconsolo ou um ato de denegação. Não, não acabou, mas não porque Trump não seja uma catástrofe, e sim porque não exterminaram, pelo menos ainda, as forças sociais capazes de reverter esse quadro tão cinza. May Boeve, da 350.org, de certa forma sintetizou: "nosso trabalho se torna muito mais difícil, mas não é impossível, e nos recusamos a perder a esperança".

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