segunda-feira, 31 de julho de 2017

De onde saiu tanto negacionismo?

Nas últimas duas semanas pensei várias vezes na frase “quanto mais rezo, mais assombração me aparece”. Daí lembrei que, como bom ateu, nem rezo nem deveria acreditar em assombração.

Mas com efeito, certas assombrações do mundo real existem e são, além de teimosas, nocivas. Há diversas pragas anticientíficas, incluindo o criacionismo, a negação de que o homem tenha ido à Lua, o movimento antivacina e até o terraplanismo, mas o negacionismo climático é certamente a mais prejudicial. Envolve vínculos econômicos poderosíssimos (como mostramos em artigo na Revista Vírus) e chegou à presidência da nação mais poderosa do planeta através de Trump, o Nero Laranja. Diferente de outras fraudes anticiência, o negacionismo climático incide sobre políticas públicas e o faz justamente quando sabemos que as consequências da inação serão profundas e duradouras quanto mais seguirmos com os “negócios como sempre”.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Trump bombardeia o Clima

Trump como meteoro.
Fonte: Der Spiegel
Embora extremamente insuficiente e limitado nos mecanismos de proteção do sistema climático, o acordo celebrado em 2015, na COP21 em Paris, reconhecia claramente a necessidade de limitar o aquecimento global e contou com a pronta adesão de quase todos os países-membros da ONU. Síria e Nicarágua eram, até esta quinta-feira 1o de Junho de 2017 os únicos países fora do tratado. A Síria, presa em um quadro de caos, guerra, devastação e migração. A Nicarágua, vejam só, por considerar o Acordo fraco demais, impróprio no sentido de não atribuir responsabilidades proporcionais entre países ricos e pobres, e tendo ela promovido medidas de mitigação bem antes da COP21. A novidade: bombardeada pelos EUA logo no inicio da desastrosa gestão de Donald Trump, a Síria agora recebe a companhia do algoz.

Não é surpresa. Desde bem antes da campanha eleitoral, Trump insiste no negacionismo climático. Pelo twitter, ele já havia decretado que o aquecimento global seria “uma farsa inventada pelos chineses” para prejudicar a competitividade da indústria dos EUA. O anúncio da eleição do bilionário fanfarrão foi suficiente para fazer as ações das companhias de carvão e petróleo decolarem nas bolsas, assim como viriam a decolar mais tarde as ações das corporações do setor bélico em abril, após Trump mandar despejar 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea do país com que agora divide a infâmia de estar de fora do Acordo de Paris.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Chega de desmaios por Justin Trudeau. O cara é um desastre para o planeta. (Artigo de Bill McKibben no Guardian)

Falar de mudanças climáticas e declarar amor aos combustíveis
fósseis? Que feio, Sr. Trudeau!
Em artigo publicado no periódico britânico "The Guardian", o ambientalista Bill McKibben desmonta uma das farsas mais abjetas da América do Norte. Você errou se pensou nos EUA e em Trump, que é um vilão explícito (misógino, racista, xenófobo, arrogante, um crápula óbvio) e, portanto, nesse sentido não pode ser considerado uma fraude. Afinal, seus ataques contra os imigrantes, o ambiente, as mulheres, os pobres, são todos coerentes com sua fala. O artigo é sobre Trudeau, o "bom rapaz" da fronteira de cima, com todo o discurso correto, que vai do debate de gênero à preocupação com a mudança climática. Obrigatório, o artigo de McKibben mostra a realidade suja por trás da aparência do primeiro-ministro do Canadá.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Greenwashing: o Ogro Filantropo


Segundo a Wikipédia: "Greenwashing (do Inglês green, verde, a cor do movimento ambientalista, e washing, lavagem, no sentido de modificação que visa ocultar ou dissimular algo), em português, lavagem verde; é um anglicismo que indica a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações (empresas, governos, etc.) ou pessoas, mediante o uso de técnicas de marketing e relações públicas. Tal prática tem como objetivo criar uma imagem positiva, diante a opinião pública, acerca do grau de responsabilidade ambiental dessas organizações ou pessoas (bem como de suas atividades e seus produtos), ocultando ou desviando a atenção de impactos ambientais negativos por elas gerados". 

terça-feira, 14 de março de 2017

"A fábrica de ilusões que leva ao colapso civilizacional" - Entrevista ao IHU

Capa do número 500 da Revista do Instituto
Humanitas Usininos - IHU
Neste ano, a Campanha da Fraternidade aborda a proteção dos biomas brasileiros, no que considero um desdobramento bastante interessante dos elementos de discussão trazidos pelo documento elaborado pelo Papa Francisco, a encíclica Laudato Sí. Nesse contexto, fui procurado pela equipe do IHU, o Instituto Humanitas Usininos para uma entrevista para o número 500 da Revista do Instituto, cujo tema geral é "Biomas Brasileiros e a Teia da Vida", disponível neste link. Para mim, foi muito interessante contribuir com o trabalho, pois as questões que me foram endereçadas foram muito além de um recorte específico sobre os biomas, mas vi que visavam estabelecer conexão entre este tema e aspectos mais gerais da crise ecológica, incluindo as mudanças climáticas, o papel nefasto cumprido pela indústria de combustíveis fósseis, que sabia há décadas o dano que estavam causando, o significado da eleição de Trump e, principalmente, o debate da insustentabilidade do modo de vida que produziu o Antropoceno. Agradecendo à equipe do IHU e em especial ao jornalista João Vitor dos Santos, trago a vocês a entrevista, também aqui, em nosso blog:

quinta-feira, 2 de março de 2017

O colapso (in)evitável e o Antropoceno

O sistema produtivo capitalista experimentou nas últimas décadas enormes transformações, que colocaram o planeta sob intensa pressão no que diz respeito às fontes de matérias-primas e de energia. A China virou um enorme galpão de fábrica, a ser alimentado por carvão e gás para suas termelétricas, minério de ferro, cobre e metais raros para eletro-eletrônicos, plástico e químicos diversos. Por todo o globo, a frota automobilística e também a frota aérea não pararam de crescer, demandando materiais metálicos e não-metálicos para sua fabricação e, sobretudo, derivados de petróleo para movimentá-las. Interconectado globalmente, o sistema capitalista proporcionou um fluxo extremamente intensivo não apenas de capital especulativo, mas desses materiais e dos produtos a partir deles fabricados. As redes longas desse sistema econômico ligaram, via extração, produção e consumo, praticamente todos os indivíduos em praticamente todos os cantos do planeta. Por terra, pelo ar e pelos mares, milhões de toneladas de material de bauxita a celulares viajam todo ano, numa espiral crescente.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Aquecimento Global: 79 Anos de Evidências

Guy Callendar (1897-1964). Foto: Wikipedia.
Um dos aspectos da desinformação difundida pelos negacionistas climáticos é esconder a história da Ciência do Clima, como se as evidências do aquecimento global e de seu caráter antrópico tivessem surgido agora, da cabeça de alguns "cientistas conspiradores". Peço que leiam com atenção o texto a seguir:

"Pela combustão, o homem adicionou cerca de 150.000 milhões de toneladas de dióxido de carbono ao ar durante o último meio século. O autor estima, a partir dos melhores dados disponíveis, que cerca de três quartos disto permaneceu na atmosfera. Os coeficientes de absorção de radiação de dióxido de carbono e vapor d'água são usados para mostrar o efeito do dióxido de carbono na "radiação celeste". A partir disso, o aumento da temperatura média, devido à produção artificial de dióxido de carbono, é estimado em 0,003ºC por ano, na atualidade. As observações de temperatura em estações meteorológicas do mundo são usadas para mostrar que as temperaturas mundiais na verdade aumentaram a uma taxa média de 0,005°C por ano durante o último meio século."

É este o resumo de um artigo intitulado "A Produção Artificial de Dióxido de Carbono e sua Influência na Temperatura", publicado por Guy Stewart Callendar, em 16 de fevereiro de 1938, há 79 anos, portanto.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Especial para nosso blog: Entrevista com Daniel Tanuro sobre Crise Ecológica e Ecossocialismo

Daniel Tanuro é militante ecossocialista, autor do livro "O
Impossível Capitalismo Verde", integrante da seção belga da
Quarta Internacional.
Ele é certamente uma das vozes que bradam mais alto por um giro ecológico junto à esquerda. Juntamente com Michael Löwy e outros membros da Quarta Internacional, tem empreendido um importante e decisivo esforço teórico no campo do que convencionamos denominar de "Ecossocialismo".

Ele não hesita em dizer que a tarefa dos ecossocialistas é "intervir em nome da natureza no debate social" e é direto quando diz que "abolir o capitalismo é uma condição necessária para (...) uma relação não-predatória da humanidade com o resto da natureza, mas não suficiente." É com grande prazer que trago para vocês a íntegra da entrevista, a seguir.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Segue o Seco

Carcaças de cágados no piso do açude do Cedro (Quixadá),
inteiramente seco. Foto: Hugo Fernandes Ferreira
"Segue o seco sem sacar que o caminho é seco
Sem sacar que o espinho é seco
Sem sacar que seco é o Ser Sol
Sem sacar que algum espinho seco secará
E a água que sacar será um tiro seco
E secará o seu destino seca"

(Carlinhos Brown)

(*) Este artigo foi originalmente publicado no site do Observatório do Clima

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Ciência, Clima, Rogue One

Na Women's March, cientistAs presentes!

O processo já vem de algum tempo. Figuras como James Hansen, Michael Mann, Katharine Hayhoe, Kevin Anderson, dentre outros climatologistas, passaram a dedicar parte importante de suas energias para o diálogo público, a defesa da ciência, a reverberação do alerta acerca da ameaça das mudanças climáticas, o combate ao negacionismo, etc. Mais recentemente, o twitter se viu tomado de contas "rogue" (ótimo exemplo é a Rogue Nasa), numa reação em cadeia à censura e caça às bruxas anticiência e antiambientalismo já nos primeiros dias da gestão Trump, nos EUA. 


Felizmente, a Ciência do Clima agora está recebendo uma solidariedade maior dos pares de outros ramos do conhecimento. Até porque a brutalidade obscurantista em voga tem surgido também noutros terrenos, da vacinação à Evolução das Espécies. Há até mesmo uma Marcha pela Ciência marcada para o Dia 22 de Abril (Dia da Terra), fortemente inspirada na participação de colegas cientistas na Marcha das Mulheres em 21/01.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Ratoeira

A humanidade se deixou aprisionar material, cultural e ideologicamente numa gigantesca armadilha: a de ignorar que se vive em um planeta limitado e com um clima cuja estabilidade foi (e continua sendo) fundamental para a sobrevivência de nossa espécie, bem como de inúmeras outras.

A cada dia que passa, vai ficando mais evidente que as mudanças climáticas não são algo remoto, para futuras gerações que ainda não conhecemos, tampouco algo abstrato. Afeta e afetará ainda mais cada um(a) dos(as) já viventes. E naquilo que mais nos é essencial.

Estimativas de Temperatura por Satélite: Como distorcer uma informação além do limite

Pseudociência recebendo resposta. Eu e vários colegas
cientistas questionamos o Comitê de Ciência, Espaço
e Tecnologia do Congresso dos EUA pelo twitter.
Neste último dia 03 de Janeiro, a conta do Comitê de Ciência (cof, cof), Espaço e Tecnologia do Congresso dos EUA no twitter publicou, no miniblog, a seguinte frase altissonante: "Dados de satélite contam uma história que os alarmistas do clima não querem ouvir. Não se ajusta à narrativa deles." E completa com um link. O link, por sua vez, nos leva a uma publicação na página de Roy Spencer, com o título "Satélites globais: 2016 estatisticamente não [foi] mais quente que 1998". Spencer é um velho pesquisador da Universidade do Alabama, em Huntsville (UAH) que embora tenha tido uma carreira de verdade no meio científico, optou por ser um dos poucos que, no meio acadêmico, se prestaram ao papel lamentável de dar suporte ao negacionismo climático. Ele é figurinha repetida nos eventos promovidos pelo Instituto Heartland, uma organização financiada pela indústria de combustíveis fósseis para propaganda anticiência, valendo-se da experiência que adquiriu ao dar suporte à indústria do tabaco quando esta tentava evitar que medidas de restrição ao fumo fossem tomadas, afetando seus lucros. Spencer também é convidado para defender grandes empresas do ramo fóssil como a Peabody (assumidamente a maior companhia privada de carvão do mundo).

De onde saiu tanto negacionismo?

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