terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Ciência, Clima, Rogue One

Na Women's March, cientistAs presentes!

O processo já vem de algum tempo. Figuras como James Hansen, Michael Mann, Katharine Hayhoe, Kevin Anderson, dentre outros climatologistas, passaram a dedicar parte importante de suas energias para o diálogo público, a defesa da ciência, a reverberação do alerta acerca da ameaça das mudanças climáticas, o combate ao negacionismo, etc. Mais recentemente, o twitter se viu tomado de contas "rogue" (ótimo exemplo é a Rogue Nasa), numa reação em cadeia à censura e caça às bruxas anticiência e antiambientalismo já nos primeiros dias da gestão Trump, nos EUA. 


Felizmente, a Ciência do Clima agora está recebendo uma solidariedade maior dos pares de outros ramos do conhecimento. Até porque a brutalidade obscurantista em voga tem surgido também noutros terrenos, da vacinação à Evolução das Espécies. Há até mesmo uma Marcha pela Ciência marcada para o Dia 22 de Abril (Dia da Terra), fortemente inspirada na participação de colegas cientistas na Marcha das Mulheres em 21/01.

Mas é importante frisar: nossa ciência já vive sob fogo cruzado há muito tempo, incluindo ataques das corporações fósseis, ataques na mídia e nas redes sociais, no que não deixa dúvidas se tratar de uma orquestração poderosa em miná-la e desmoralizá-la. E acreditem: a solidariedade a nós sempre foi mínima, mesmo no meio científico. Na verdade, em alguns casos, recebemos justamente o oposto de uma posição solidária, como no caso da SBPC, no qual estivemos envolvidos. Uma pista vem de uma frase de Isabelle Stengers (em texto da autora enviado ao simpósio "Os Mil Nomes de Gaia"), sobre nós, Cientistas do Clima e porque subitamente passamos a uma posição tão distinta de Geólogos, Engenheiros, Físicos Nucleares e outros:
Conta "rogue", de protesto por parte de cientistas e
técnicos da NASA. A rebelião começou com as contas
dos parques nacionais.
"O ataque à Ciência do Clima foi sintomático. Para os tradicionais aliados na Ciência, os climatologistas a soar o alarme eram traidores, passando ao lado daquela turma do 'voltemos às cavernas' que questionam progresso e desenvolvimento. Era como uma facada nas costas... provavelmente obedecendo a uma agenda ideológica escondida."
Isso deve ajudar vocês a entenderem porque embora mais de 97% dos pesquisadores em clima e 99,994% dos artigos publicados na área apontem num único sentido (o aquecimento global existe, é antrópico e perigoso), seja relativamente fácil o recrutamento, nas áreas que citei e outras áreas afins à nossa, de pessoas para o negacionismo climático e sua cruzada anticiência grotesca. É motivo de estranhamento para muitos de nós, pois os cientistas do clima não saímos por aí dando pitaco nos rumos das pesquisas sobre câncer, ou do novo semicondutor para chips super-rápidos, tampouco reclamamos do nome atribuído ao último elemento químico artificial sintetizado em laboratório (mas convenhamos, Livermório... putz, que nome feio..).
Pior, esse recrutamento às vezes envolve grana, sim. Como é o caso de vários cientistas que se deixaram corromper pela indústria de combustíveis fósseis. Mas muitas vezes, não. O desserviço prestado por aqueles que se incorporam ao obscurantismo negacionista é às vezes prestado de graça, para alegria dos CEOs da Exxon, da Shell, da BP e outras corporações.
O ponto é: apesar de a maioria de nós não perceber isso no seu fazer acadêmico, a ciência como tradicionalmente erigida, é estreitamente ligada à noção de "progresso", especialmente quando o conhecimento científico pode virar aplicação tecnológica (e mais ainda quando esta pode virar mecanismo de acumulação de capital). Na verdade, a "agenda ideológica escondida" (escondida também no sentido de não-percebida) é precisamente essa ilusão de um roteiro inexorável para o mais, o maior, a ilusão de evolução como sinônimo de "progresso". E quando esta se conecta intimamente a outra ilusão (a de crescimento econômico infinito) então...
Percebam então que quando a nossa perspectiva científica nos coloca em posição de não apenas municiar a nós e à sociedade com conhecimento que objetivamente (ou seja, independente da vontade de quem quer que seja e até da percepção que temos disso) se contrapõe à ideologia do crescimento, desenvolvimento e progresso ilimitados, como expõe ramos irmãos da ciência (quiçá ela como um todo, no seu sentido tradicional), revelando suas contradições e a contaminação - igualmente objetiva - do fazer científico da maioria da academia por essa ideologia, viramos párias, deixamos o Elysium científico.
O que resta, assim, é que mais colegas da comunidade de clima reflitam sobre o seu lugar de atuação na academia, sobre o papel que o conhecimento que têm gerado pode ter, até mesmo para uma reorganização tão necessária, revolucionária, da sociedade humana; que mais colegas busquem diálogo público, que se engajem. Ao fazê-lo, não estarão abdicando da postura de objetividade e de pretensa "neutralidade" da Ciência. Estarão, na verdade, resgatando-as, pois a science-business as usual, esta sim, nada tem de "neutra" e "objetiva". 
Sob a ilusão ideológica do progresso, a Ciência permanecerá olhando para as partes e oferecendo a ferramenta para o capital estragar o todo. Mas a movimentação mostrada pelas corporações nos últimos anos mostra que se é para defender seus interesses mesquinhos e o lucro a curto prazo, há disposição inclusive de atacar a ciência (negócios são negócios, sem essa de gratidão por serviços prestados). Nesse contexto, há, por fim, a esperança (e rebeliões se nutrem dela, não é?) de que a Marcha da Ciência abra caminho para questionamentos mais profundos dentro do meio acadêmico, envolvendo epistemologia, relação com o conjunto da sociedade, etc. Que esses tempos tão duros, sejam pelo menos pedagógicos e os que estão tão acostumados a "ensinar", aprendam algumas lições...

Um comentário:

  1. Opinião sensata e inteligente para toda essa problemática das mudanças climáticas.

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